segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Beltane outra vez !!

Chegamos novamente à época do Beltane, celebrado em forma de festival na antiga religião matriarcal dos celtas.  Embora cada um siga a religião que abraçou, uma reflexão mais abrangente do que significa o Beltane traz de volta a brisa de algo que não lembramos, mas que não esquecemos totalmente... A lembrança da gratidão à Mãe Terra, ao Poder do Selvagem...Essa brisa traz de volta o aroma das flores e dos frutos vicejando nos campos, as fogueiras e as danças em noite de lua cheia,  o cheiro dos ventos e dos oceanos, o compartilhar do alimento entre risos e histórias, os corpos dançando livremente, a alegria selvagem e fundamental de estarmos vivos....


Sim, somos todos discípulos da Deusa-Mãe que nos forçaram a esquecer... Sim, somos a imagem e semelhança do Pai, e também da Mãe, pois Deus é tudo....

A gratidão de estar vivo é o motivo para comemorarmos o Beltane: o fim do inverno, a volta do sol,  o renascer, o recomeçar... Pois sempre é possível recomeçar.  Dizem alguns que estamos aqui nesse mundo de passagem... Sei não. Acho que, enquanto estamos aqui, independentemente para onde estamos seguindo em nossa viagem cíclica e ascendente , enquanto estivermos aqui, devemos fazer valer...  Por isso,  na noite de hoje, celebremos !

Celebremos a alegria de estarmos vivos, respirando, caminhando, pensando, ponderando, decidindo... Celebremos o poder de retroceder, de refazer, de recriar, de começar de novo... Celebremos o poder de transmutarmos vida em alimento, seja essa vida em forma de vegetais ou animais... Celebramos com uma taça de vinho, pois o vinho nos acompanha desde tempos imemorias...
Que cade uma de nós se prepare para o Beltane da forma como melhor lhe convier no momento de vida que estiver vivendo... Mas sejamos gratos à Mãe Natureza, ao Sol que nos incendeia, a Lua que nos embala, a Chuva que nos faz florescer...

Acenda sua fogueira interior, feche os olhos e dance em volta dela, ouça a música,  convoque em pensamento  todos os seus entes queridos, ouça a música e os risos, cante, enfeite-se de flores, ame e transborde de gratidão por estar vivo: É Beltane, afinal!

domingo, 16 de outubro de 2011

O urso da meia-lua

Meu lado Sherazade quer derramar aqui no blog um cabedal de histórias... Quero muito contá-las aqui, e as contarei, a do Barba Azul, a dos ”Sapatinhos Vermelhos”, e  a da  “Cantadora de Ossos”, entre outras tantas.

Hoje porém  vou reescrever a história do urso da meia-lua, uma linda história oriental sobre o domínio da ira e sobre o perdão.  Essa história fala da viagem que, mais cedo ou mais tarde, todos devemos empreender: subir nossa própria montanha, desafiar um a um todos os perigos, dominar todos os nossos medos, em busca daquilo que é  verdadeiro em nossa vida.  Como guia e escudo, levamos somente o amor...

“Era uma vez uma jovem mulher que vivia numa perfumada floresta de pinheiros.  Seu marido esteve fora, lutando na guerra, muitos anos.  Quando ele afinal foi liberado, voltou para casa com o pior do humores.  Ele se recusou a entrar na casa pois havia se acostumado a dormir nas pedras.  Ele só queria ficar só e permanecia na floresta tanto de dia quanto à noite.  A jovem esposa ficou tão feliz quando soube que o marido estava afinal voltando para casa.  Ela cozinhou e fez compras, e fez compras e cozinhou.  Preparou pratos e mais pratos, tigelas e mais tigelas, de delicioso queijo branco de soja, três tipos de peixe, três tipos de algas, arroz salpicado com pimenta vermelha, e belos camarões frios, grandes e alaranjados.  Com um tímido sorriso ela levou os alimentos até o bosque e se ajoelhou  ao lado do marido esgotado pela guerra, oferecendo-lhe a bela refeição que havia preparado.  No entanto ele se pôs de pé e chutou as travessas de modo que o queijo de soja caiu, os peixes saltaram no ar, as algas e o arroz caíram na terra e os grandes camarões alaranjados rolaram pelo caminho abaixo.
 – Deixe-me em paz! – rugiu ele, voltando-lhe as costas.  Ele estava tão furioso que ela sentiu medo.  E afinal, em desespero, ela foi procurar a gruta da curandeira que morava fora da aldeia.
 – Meu marido foi ferido gravemente na guerra – disse a esposa.  – Ele sofre de uma raiva permanente e não come nada.  Só quer ficar ao ar livre e não se dispõe a voltar a viver comigo.  A senhora não pode me dar uma poção que faça com que ele volte a ser carinhoso e gentil?
– Isso eu posso fazer por você – asseverou-lhe a curandeira.  – Mas vou precisar de um ingrediente especial.  Infelizmente, acabou todo meu pelo  de urso de meia-lua.  Por isso você deve subir a montanha, encontrar o urso negro e me trazer um único pelo da meia-lua que ele tem no pescoço.  Depois, eu lhe darei o que você precisa, e a vida voltará a ser boa.
Algumas mulheres teriam se sentido desencorajadas com essa tarefa.  Algumas teriam considerado que todo esse esforço era impossível.  Mas não ela, pois ela era uma mulher que amava.
–  Ah ! Como lhe sou grata ! É tão bom saber que existe uma solução. – E assim ela se preparou para a viagem e na manhã seguinte partiu para a montanha. –   Arigatô zaishô – dizia ela, o que é uma forma de cumprimentar a montanha e lhe dizer “Obrigada por me deixar escalar seu corpo”.  Ela se embrenhou nos contrafortes, onde havia rochas semelhantes a grandes pães de forma.  Subiu até um platô coberto de mata.  Ás árvores tinham galhos longos e caídos e folhas que se pareciam com estrelas. –  Arigatô zaishô – entoou.  Era uma forma de agradecer as árvores por erguerem seus cabelos para que ela pudesse passar por baixo.  E assim ela conseguiu atravessar a floresta e começou a subir de novo.  Agora estava mais difícil.  A montanha tinha flores espinhosas que se prendiam na barra de seu quimono e rochas que arranhavam suas mãos delicadas.  Estranhos pássaros escuros saíram voando na sua direção no crepúsculo, deixando-a assustada.  Ela sabia que era os muen-botoke, espíritos dos mortos que não tinham parentes.  Ela entoou orações para eles. – Vou ser sua parenta.  Vou dar-lhes descanso.  Ela prosseguiu subindo pois era uma mulher que amava.  Subiu até ver neve no pico da montanha.  Logo seus pés estavam frios e molhados, e ela continuava a escalar, pois era uma mulher que amava.  Começou uma tempestade, e a neve penetrava direto nos seus olhos e fundo nas suas orelhas.  Mesmo sem ver, ela continuava a subir. – Arigatô zaishô – cantou a mulher , quando a nevasca parou, para agradecer aos ventos por terem parado de cegá-la.  Ela procurou abrigo numa caverna rasa e mal conseguiu lugar para seu corpo inteiro.  Embora tivesse uma bolsa cheia de alimentos, ela não comeu, mas se cobriu com folhas e adormeceu.  Pela manhã o ar estava calmo e plantinhas verdes chegavam a atravessar aqui e acolá.  – Ah – pensou ela.  – Agora, ao urso da meia-lua.  Ela procurou o dia inteiro quase ao anoitecer encontrou grossos cordões de bosta.  E não precisou procurar mais, pois um gigantesco urso negro passou pesadamente pela neve, deixando profundas marcas de patas e garras.  O urso da meia-lua deu um rugido feroz e entrou em sua toca.  A mulher enfiou a mão na trouxa e colocou numa tigela a comida que trouxera.  Ela colocou a tigela do lado de fora da toca e voltou correndo para seu esconderijo.    O urso sentiu o cheiro da comida e saiu cambaleando da toca, rugindo tão alto que pequenas pedras se soltaram do lugar.  O urso fez um círculo em volta da comida de uma certa distância, farejou o vento muitas vezes e depois comeu tudo de uma só vez.  O enorme urso foi andando de ré e sumiu dentro de sua toca.  Na noite seguinte, a mulher agiu da mesma forma, servindo o alimento na tigela, mas dessa vez não voltou para seu esconderijo, recuando apenas metade do caminho.  O urso sentiu o cheiro da comida, saiu pesadamente da toca, rugiu para abalar os céus e as estrelas, deu uma volta, farejou o ar com extremo cuidado, mas afinal engoliu a comida e voltou para a toca.  Isso continuou por muitas noites até que numa noite escura a mulher sentiu ter coragem suficiente para esperar ainda mais perto da toca do urso.  Ela pôs a comida na tigela do lado de fora e ficou esperando junto à abertura.  Quando o urso sentiu o cheiro e saiu, ele viu não só a comida mas também um par de pequenos pés humanos.  O urso virou a cabeça e rugiu tão alto que fez os ossos do corpo da mulher zumbirem.  A mulher tremia mas não recuava.  O urso ergueu nas patas traseiras, estalou as mandíbulas e rugiu tanto que a mulher pôde ver o céu vermelho e marrom da sua boca.  Mesmo assim, ela não saiu correndo.  O urso rugiu ainda mais e estendeu seus braços como se quisesse agarrá-la, com suas dez garras suspensas como dez facas sobre sua cabeça.  A mulher tremia como uma folha ao vento, mas permaneceu onde estava.  – Por favor, meu querido urso – implorou ela.  – Por favor, vim toda essa distância em busca de uma cura para meu marido.  – O urso voltou as patas dianteiras para a terra fazendo voar a neve e olhou diretamente no rosto assustado da mulher.  Por um instante, ela teve a impressão de ver cordilheiras inteiras, vales, rios e aldeias refletidas nos olhos vermelhíssimos do urso. Uma paz profunda caiu sobre ela, e seus tremores passaram.  – Por favor, urso querido, eu venho lhe trazendo alimento todas essas noites.  Será que eu podia ficar com um dos pelos da meia-lua do seu pescoço?
O urso parou e pensou, essa mulherzinha seria fácil de devorar.  No entanto, ele de repente se sentiu cheio de pena dela.  – É verdade – disse o ursoda meia-lua, sem afastar as garras da sua cabeça. – Você foi boa para mim.  Pode ficar com um dos meus pelos.  Mas arranque-o rápido, vá embora e volte para a sua gente. O urso ergueu seu enorme focinho para que aparecesse a meia-lua branca do seu pescoço, e a mulher viu ali a forte pulsação do seu coração.  A mulher pôs uma das mãos no  pescoço do urso, e com a outra segurou um único pelo branco e lustroso.  Rapidamente ela o arrancou.  O urso recuou e gritou como se estivesse ferido.  E essa dor assumiu a forma de bufos irritados.  – Ah, obrigada, urso da meia-lua, muitíssimo obrigada.  – A mulher se inclinou em reverência e voltou a se inclinar.  Mas o urso rosnou e avançou um passo.  Ele rugiu para a mulher com palavras que ela não entendia e, no entanto, palavras que de algum modo havia conhecido toda a vida. Ela se voltou e correu montanha abaixo com a maior velocidade possível.  Ela passou correndo debaixo das árvores de folhas com formato de estrelas.  E o tempo todo ela agradecia às árvores por erguerem seus galhos para ela passar.  Ela veio tropeçando pelas pedras que pareciam grandes pães de forma, sempre agradecendo à montanha por deixar que ela escalasse seu corpo.  Embora suas roupas estivessem esfarrapadas, seu cabelo desalinhado, seu rosto sujo, ela desceu a escada de pedra que levava até a aldeia, seguiu pela estrada de terra atravessando a cidade até o outro lado e entrou na cabana onde a curandeira estava sentada cuidando do fogo.
– Olhe !  Olhe !  Consegui, encontrei, conquistei um pelo do urso da meia-lua! – gritou a jovem mulher.
– Que bom – disse a curandeira com um sorriso,  Ela examinou a mulher atentamente, pegou o pelo de um branco puríssimo e o segurou perto da luz.  Ela sopesou o longo pelo com uma das mãos e o mediu com um dedo e exclamou: - É ! Este é um autêntico pelo do urso da meia-lua. – De repente, porém, ela se voltou e lançou pelo no meio do fogo, onde ele estalou, pipocou e se consumiu numa bela chama laranja.
–  Não ! – gritou a mulher. – O que a senhora fez?
– Fique calma.  Está certo.  Tudo está bem – disse a curandeira.  – Você se lembra de cada passo que deu para conquistar a confiança do urso da meia-lua?  Você se lembra do que viu, do que ouviu e do que sentiu?
– Lembro – disse a mulher.  - Lembro-me muito bem.
–  Então, minha filha – disse a velha curandeira com um sorriso meigo – volte por favor para casa com seus novos conhecimentos e proceda da mesma forma com seu marido.


Tsunika Waguma

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

De novo, o Profeta

Já postei aqui o lindo texto onde  Kalil Gibran, pela voz do Profeta, fala sobre o Amor. Hoje fui buscar o texto em que ele fala sobre a dor, que também é lindo, mas que talvez sua beleza só possa ser entendida por aqueles que experimentaram, ao final de  um período de profunda dor, a consciência de que a travessia  só foi possível pela invisível Mão que nos ampara... E que nos conduz pelos caminhos áridos e causticantes , e que nos impele através  da solidão do deserto, e que nos faz agarrar com mãos nuas às rochas pontiagudas dos despenhadeiros.
Aqueles que já fizeram essa travessia, e encontraram o oásis que abriga, conforta e regenera, acolherão as palavras do Profeta em seus corações. Pois sabem  que sem essa Mão, que muitas vezes nos carrega, tamanha a nossa fragilidade,  teria sido impossível a jornada.
Aqueles que estão, nesse momento, no vale de sua dor e não conseguem extrair  alívio das palavras do Profeta, os que  se sentem sós  e esquecidos em seu sofrimento, sugiro que as leiam  mesmo assim, e que as repitam suavemente... E que esperem e confiem, e sigam caminhando em frente, pois o oásis está próximo...


"E uma mulher disse: - Fala-nos da dor. 
E ele respondeu dizendo: - É a dor que parte a casca do vosso entendimento.
Como o caroço do fruto se deve partir, para que o seu coração se ofereça ao sol, assim deveis conhecer a dor.
E podereis guardar o vosso coração maravilhado pelo milagre de estar vivo todos os dias, e a vossa dor não aparecerá menos maravilhosa que a vossa alegria.
E aceitareis as estações do vosso coração como aceitastes as estações que passam pelos campos.
E velareis serenamente durante os invernos da vossa tristeza. 
Muito do vosso sofrimento fostes vós que o escolhestes. É a porção amarga por meio da qual o médico cura o vosso eu doente. 
Confiai no médico e bebei a poção calados e tranqüilos. 
Pois a sua mão, apesar de ser dura e pesada, é guiada pela mão bondosa do Invisível.
E a taça que oferece, apesar de queimar os lábios, foi moldada da argila que o oleiro molhou com suas lágrimas."

sábado, 17 de setembro de 2011

Desejos

 Meu coração é cheio de desejos…

Uns são nobres, outros bem mundanos.

Meu coração é cheio de desejos…

Às vezes quisera não desejar tanto.

Meu coração é cheio de desejos…

Febris e devassos que com os puros convivem.

Meu coração é cheio de desejos…

Uns eu realizo, outros são só devaneio.

Meu coração é cheio de desejos…

Mas o que mais inquieta a minha alma

É o desejo-ânsia de ser amada, que jamais se cala...

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Mil e uma noites



Sério, se esse não fosse o papiro de Nefertiti seria, sem sombra de dúvida, a alcova de Sherazade....
Porque as histórias me fascinam, principalmente quando bem contadas. Há tantas histórias que quero contar aqui, histórias que desvendam coisas antigas através da sua simbologia, arquétipos poderosos presentes em nossas vidas e que mal damos conta que existem e que nos regem...
Qual o poder de uma história? Contada às crianças na sua tenra idade, transmitida através das gerações  em volta de fogões ou de fogueiras, lendas que não se perdem, fábulas que ensinam, contos que se eternizam... Livros que lemos na infância ou na juventude e nos flagramos dando de presente aos mais novos... Quem nunca disse ou ouviu essa frase: "Você precisa ler esse livro!" ?  Vale também pros filmes...
Há dois mil anos, aquele que ensinava por parábolas já sabia do poder de uma história!
As histórias são bálsamos, e essa frase nem é minha.  Mesmo aquelas que terminam abruptamente, com um final inesperado ou mesmo violento ou trágico, têm um objetivo a cumprir, seja de promover um alerta, seja de suscitar uma reflexão. Penso em Sherazade, que durante noites e noites contou histórias dentro de histórias, e assim aplacou a ira do Califa, transmutando sua fúria cega em amor e compaixão.  Histórias inspiram, transformam.  Histórias também assustam, dão medo, pavor. Histórias trazem à tona coisas que estavam esquecidas ou reprimidas em cantos empoeirados de nós mesmos, sentimentos trancados em quartos e armários escuros da nossa mente. E, trazendo à tona tais coisas, promovem libertação...
Lembrei de Peter Pan que vinha sentar-se à janela da jovem Wendy, para ouvir histórias sobre ele mesmo, contadas aos menores antes da hora de dormir... Como se, ouvindo suas próprias histórias, Peter Pan talvez encontrasse suas próprias respostas e resolvesse , finalmente, crescer...


"Sempre que se conta um conto de fadas, a noite vem.  Não importa o lugar, não importa a hora, não importa a estação do ano, o fato de uma história estar sendo contada faz com que um céu estrelado e um lua branca entrem sorrateiros pelo beiral e fiquem pairando acima da cabeça dos ouvintes. Às vezes, ao final de um conto, o aposento enche-se de amanhecer; outras vezes um fragmento de estrela fica pra trás, ou ainda uma faixa de luz rasga o céu tempestuoso.  E não importa o que tenha ficado para trás, é com essa dádiva que devemos trabalhar: é ela que devemos usar para criar alma."  Clarissa Estés

domingo, 14 de agosto de 2011

O segredo da felicidade

Estou relendo "O Alquimista". Interessante porque eu o li pela primeira vez em 1991, então faz exatamente 20 anos....
Fiquei pensando se, ao lê-lo agora, vou me deter nas mesmas partes da história que me detive há 20 anos, partes que falaram tanto à minha alma na época.  Embora esteja ainda no início do livro, já reencontrei frases e citações que voltaram a me tocar... Que bom, então o tempo não me fez insensível ao chamado da Lenda Pessoal...
Resolvi copiar aqui um pequenina parábola contada por Melquisedec ao jovem Santiago, antes que ele partisse em busca do seu tesouro.  Senta, que lá vem história !

"Certo mercador enviou seu filho para aprender o Segredo da Felicidade com o mais sábio de todos os homens. O rapaz andou quarenta dias pelo deserto até chegar a um belo castelo, no alto de uma montanha. Lá vivia o Sábio que o rapaz buscava.
Ao invés de encontrar um homem santo, porém, o nosso herói entrou numa sala e viu uma atividade imensa; mercadores entravam e saíam, pessoas conversavam pelos cantos, uma pequena orquestra tocava melodias suaves, e havia uma farta mesa com os mais deliciosos pratos daquela região do mundo. O Sábio conversava com todos, e o rapaz teve de esperar  duas horas até chegar sua vez de ser atendido.
O Sábio ouviu atentamente o motivo da vista do rapaz, mas disse-lhe que naquele momento não tinha tempo de explicar-lhe o Segredo da Felicidade. Sugeriu que o rapaz desse um passeio por seu palácio e voltasse dali a duas horas.
- Entretanto, quero lhe pedir um favor - completou o Sábio, entregando ao rapaz uma colher de chá, onde pingou duas gotas de óleo. - Enquanto você estiver caminhando carregue esta colher sem deixar que o óleo seja derramado.
O rapaz começou a subir e descer as escadarias do palácio, mantendo sempre os olhos fixos na colher.  Ao final de duas horas, retornou à presença do Sábio.
- Então - perguntou o Sábio - você viu as tapeçarias da Pérsia que estão na minha sala de jantar? Viu o jardim que o Mestre dos Jardineiros demorou dez anos para criar? Reparou nos belos pergaminhos da minha biblioteca?
O rapaz, envergonhado, confessou que não havia visto nada. Sua única preocupação era não derramar as gotas de óleo que o Sábio lhe havia confiado.
- Pois então volte e conheça as maravilhas do meu mundo - disse o Sábio. - Você não pode confiar num homem se não conhece a sua casa.
Já mais tranquilo, o rapaz pegou a colher e voltou a passear pelo palácio, desta vez reparando em todas as obras de arte que pendiam do teto e das paredes.  Viu os jardins, as montanhas ao redor, a delicadeza das flores, o requinte com que cada obra de arte estava colocada em seu lugar.  De volta à presença do Sábio, relatou pormenorizadamente tudo que havia visto.
- Mas onde estão as duas gotas de óleo que lhe confiei? - perguntou o Sábio.
Olhando para a colher, o rapaz percebeu que as havia derramado.
- Pois este é o único conselho que eu tenho para lhe dar - disse o mais Sábio dos Sábios. - O segredo da felicidade está em olhar todas as maravilhas do mundo, e nunca se esquecer das duas gotas de óleo na colher."

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O predador da alma humana

Depois que a gente lê sobre a desolação e a consolação, começa a perceber com mais clareza o quanto é sutil o nosso Inimigo.  Diz Santo Inácio que o Inimigo da nossa alma é como o homem que quer ser aproveitar da donzela incauta contando-lhe mentiras para seduzi-la ; diz  Clarissa Estés que esse Inimigo é o predador de nós mesmos, que habita a nossa mente e nos sabota o tempo todo.
Seja pela visão religiosa ou pela visão psicanalítica, a verdade é que ele existe.  Às vezes ele é assustador e horrendo , querendo nos impor o medo e o desespero; no entanto, quando nos tornamos mais fortes e já não demonstramos  medo , ele age de tantas outras formas.  Ele planta a mal-querência,  a inveja, infla o nosso orgulho em proporções desmedidas para que nos tornemos cegos ao Bem. Ele se aproveita de nossas pequenas fragilidades, de nossos cansaços e de nossas carências, ora nos fazendo vacilantes, ora nos enchendo de espinhos, mostrando-nos a força de nossa fúria, para que saiamos desgovernados, maltratando aos que amamos, pois dessa forma torturamos a nós mesmos, sendo essa a sua  principal aspiração.
O predador da nossa alma nunca dorme, pois sabe que tem que tentar todas as chances de conseguir o seu objetivo. Como tão bem ilustrado na história da Donzela sem Mãos, ele troca as mensagens causando desentendimento e tristeza; ele procura corromper os homens com valores fugazes , tesouro, fama, vaidades. Ele se mete em cada casa e em cada família, procurando plantar discórdias e silêncios entre pais e filhos, entre marido e mulher, entre irmãos e amigos. Ele é desleal porque nos usa como escudo se aproveitando de nossas fragilidades; ele é traiçoeiro porque muda de máscara conforme a ocasião, alternando  a figura de besta assustadora com  o disfarce de pele de cordeiro.  Ele é perigoso porque alimenta nossos desejos às avessas, nos elevando às alturas através do nosso egoísmo.
Ele ainda falsamente nos consola com pensamentos de não ligo, não me importo, vocês vão ver, não sabe o que te esperam, e toda a consolação enganosa que se, no primeiro momento parece trazer alívio, na verdade só nos suga dentro de uma espiral descendente e escura.  Esses pensamentos não nos iluminam; esses pensamentos não nos trazem para a leveza da paz.
Diz o texto bíblico : “Sede sóbrios e vigiai, pois o Adversário anda à volta, como um leão que ruge, pronto a vos devorar.”
Contra a desolação e a consolação enganosa, devemos agir contra. Caminhar com decisão e firmeza no sentido contrário a pensamentos que nos arrastam para o lodo.  Diagnosticar logo o que é e o que não é do Bem.  Pensamentos que nos oprimem, que nos diminuem, que nos fazem rancorosos, nada disso vem da Força que buscamos.  Quem viu Guerra nas Estrelas sabe que a Força tem dois lados: devemos escolher a cada momento quem será o nosso mestre, e a que Voz devemos seguir.  Pois  o poder do lado Negro tem seu encanto, justamente para nos atrair e destruir. Para resistir a ele,  agere contra ! E que a Força esteja conosco.

Obs:  Para quem estiver interessado em  ler mais sobre a consolação e  desolação, e como agir nas duas situações, indico:

quinta-feira, 21 de julho de 2011

O Equilíbrio

Há dias atrás fui procurar um livro antigo do Lourenço Prado, chamado  Equilíbrio e Recompensa.  Porque se há uma coisa de difícil aprendizado para mim é essa  manutenção do equilíbrio. O equilíbrio é diferente da paz, eu acho. A paz é volátil;  por ser inebriante é mesmo de sua característica ser passageira; visto que nenhum perfume ou aroma pode permanecer  para sempre.  Quando a paz se vai, é nesse momento que deve ficar o equilíbrio.  Difícil.
Outro dia recebi um powerpoint sobre um velho mestre samurai que, frente a um jovem da cidade que o desacatava e o ofendia, permaneceu impassível ouvindo todas as espécies de injustiças até que o ofensor, cansado e frustrado, desistisse do seu intento e fosse embora.  Ao ser perguntado como pôde manter a calma  frente àquela chuva de acusações, o mestre explicou que era uma questão de aceitar ou não as ofensas... Não as aceitando  intimamente, o ofensor as levaria de volta, carregando o peso de cada uma delas...
Procuro uma imagem que represente esse desejado equilíbrio.  A primeira imagem que me vem é a de um lago, mas vejam,  abaixo de sua superfície espelhada  agitam-se dores e sentimentos e emoções tão intensas. Sua superfície é lisa como um espelho que reflete as rochas e as árvores , mas um mergulho no seu escuro  frio  traz  a certeza que esse é um caminho  perigosamente envolvente, onde os sentimentos há muito sedimentados no fundo voltam em turbilhão e comprometem  a transparência da água.  A imagem da âncora, então aparece...  Uma guia, uma corda, com uma âncora confiável lá no fundo, pode ajudar nessa descida exploratória.  Descendo lentamente, tendo como direção o traçado da corda que termina na âncora,  poderemos ir mais profundamente. Descendo lentamente, a suspensão será menor e poderemos vislumbrar melhor todos os sentimentos que se agitam dentro do nosso próprio eu.  Com a mão na guia, saberemos que o caminho de volta à superfície é garantido; então poderemos nos permitir ficar inertes por um momento, e observar a água voltar a clarear,  a luz  do sol incidir mesmo no lugar mais profundo, ouvir o som da nossa respiração em sintonia com o silêncio... Sentir enfim que, seja qual for a onda com que a desolação nos atinja, esse momento irá passar e voltaremos a deitar sobre a relva à beira do lago, aquecer-nos sob um sol que nos abraça e, quem sabe sentir novamente o aroma da paz.         
 

terça-feira, 7 de junho de 2011

Lá e de volta outra vez...

Quando bate a angústia ou a desolação, tenho vontade de vir para cá escrever.  Quando estamos muito bem cuidando de nossas vidas, pagando contas e organizando tarefas, indo e vindo nas inúmeras atividades que nos distraem do essencial, eis que ele vem sussurrar mensagens enganosas junto de nossos ouvidos.  Lembrei-me hoje tão bem da história da Donzela sem Mãos.  Do diabo trocando as mensagens junto ao rio, o mensageiro adormecido no descuidado abandono de sua vigília.  A  desolação  chega de repente, mas chega  avassaladora, como o vento frio cortando tudo em estilhaços de gelo.  Quando Rowling fala dos dementadores, e de como bloqueiam a sensação de felicidade, quando Tolkien define os espectros como a escuridão definitiva da alma, o ferimento que nunca fecha, isso é a desolação.  A desolação murcha de repente o mais florido jardim de sonhos, ela decepa as esperanças e congela de imediato aquela chama que teima em bruxulear contra a profunda escuridão.
O grande objetivo da desolação é nos roubar a esperança.  É nos deixar tão cegos de dor que não consigamos sair dessa névoa traiçoeira, que se levanta dos pântanos da mente para nos envolver e tragar.
É preciso pois, contra esse gelo que corta e esse frio que açoita, algo inflamável que nos possa devolver o calor.  Algo que brilhe e ilumine, algo que aqueça rápido e conforte, algo de fácil combustão pois não podemos  ficar perdidos no frio e no gelo por muito tempo.
Onde podemos guardar essa chama dentro de nós, para que possamos contar com ela quando a desolação nos tomar? Em que caixa ou redoma à prova de tempestades essa chama pode estar protegida para que nos conduza para fora do pântano todas as vezes que for preciso?
Penso em Vasalisa, e sua caveira incadescente. Penso no filme "A guerra do fogo"onde as tribos nômades lutavam per uma pequena brasa para que o fogo nunca lhe faltasse. Penso na explosão da fênix, criando vida e luz aonde só havia cinzas. Penso no Espírito Santo, presença quente e poderosa de Deus, luz que propaga afastando a escuridão, incenso mágico que queima nos transportando de volta à proteção paterna; lembro das línguas de fogo que vieram sobre os apóstolos, enchendo-os de dons.
Esse fogo, essa chama que arde, é a Vida lutando contra a desolação.  É a tal centelha divina que herdamos de nosso Pai, é fogueira que nos infunde de volta a coragem: É consolação...

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O amor e o moinho

Cena de "O velho moinho", premiado com o Oscar
(Disney sabia das coisas...)

Ter nos tornado urbanos e civilizados em demasia nos fez perder o conhecimento de muitas coisas.  Os símbolos, por exemplo.  Não esses símbolos que o comércio e a mídia nos empurra mas os símbolos antiquíssimos, os arquétipos, a simbologia das coisas ocultas...
O moinho, por exemplo.  Lembram do moinho, na história da Donzela sem Mãos? Pois é.  Ele reaparece na definição, linda, de Kalil Gibran sobre o amor.  O moinho é pra nós um elemento esquecido na correria do mundo industrializado, onde tudo vem pronto em saquinhos plásticos, inclusive os pensamentos... 
O moinho é o meio pelo qual o grão é transformado em farinha, que faz o pão, alimento do espírito. O moinho representa também o processo criativo, a transformação das idéias.  Na história da Donzela, o moinho abandonado do pai da donzela mostra o afastamento da vida criativa por esse homem que abdicou de sua nobre função de moleiro e se tornou apenas um rude lenhador, deixando-se iludir pelas futilidades do mundo, perdendo assim aquilo que lhe era mais caro, a sua filha amada.
O amor, segundo Gibran, nos mói até a extrema brancura, para que, transformados e purificados de nossas impurezas, possamos participar de algo maior, que é a confecção do alimento divino. Como diz o poeta, assim como o amor nos coroa, ele também nos crucifica.  Sim, porque o amor verdadeiro é um coração que sangra... É com sangue que a mulher dá à luz os filhos; foi com sangue que Jesus selou seu amor  por nós.  Quem vê Vampire Diaries, já sabe:  amor se escreve com sangue...

Como o dia dos Namorados se aproxima, deixo para vocês a sabedoria de Gibran na voz do  Profeta, que transcende as eras.

Então, Almitra disse: “Fala-nos do amor.”
E ele ergueu a fronte e olhou para a multidão,
e um silêncio caiu sobre todos, e com uma voz forte, disse:

Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
Como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
Assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento,
Trabalha para vossa queda.
E da mesma forma que alcança vossa altura
E acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
Assim também desce até vossas raízes
E as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
No pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós
Para que conheçais os segredos de vossos corações
E, com esse conhecimento,
Vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor,
Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
E abandonásseis a eira do amor,
Para entrar num mundo sem estações,
Onde rireis, mas não todos os vossos risos,
E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
E nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:
“Deus está no meu coração”,
Mas que diga antes:
"Eu estou no coração de Deus”.
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
Pois o amor, se vos achar dignos,
Determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo
Senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
Sejam estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
Que canta sua melodia para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado
E agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia
E meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
E nos lábios uma canção de bem-aventurança.

                                                    Extraído do livro O Profeta, de Kalil Gibran

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Mistério

De uma forma inexplicável, Deus vai fechando as nossas feridas...

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Oração a meu Deus

Fortalece-me.
O mundo às vezes parece querer engolir-me. 
Livra-me!
Afasta as unhas retorcidas que rasgam minha carne, querendo arrancar o coração de meu peito.
Ilumina-me!
A escuridão goteja à minha volta, esperando um descuido meu para me tomar.
Sara-me!
Fecha com autoridade feridas que teimam em perpetuar.
Unge-me!
Derrama Tua paz  em minhas cicatrizes, tornando-as meus pontos mais fortes.
Adoça-me!
Só Tua brandura pode contra a fúria do mundo.
Alegra-me!
Só o Teu júbilo me torna mais apta a amar.
Concede-me!
As graças que de joelhos peço para os que me são caros.
Ensina-me!
A Tua constante presença praticar.
Ajuda-me!
A  Tua luz no mundo refletir...

domingo, 17 de abril de 2011

O aroma da amizade

Recebi um powerpoint bonitinho sobre a amizade, com slides de flores e a comparação dos amigos com as essências que cada flor exala.

Fiquei pensando que é uma  feliz comparação , essa dos amigos com as essências das flores.  Cada amigo é único, e nos passa uma essência única, que desperta em nós respostas únicas... Um amigo nos engradece com sua coragem e determinação de enfrentar a vida; outro amigo nos ilumina em momentos de dúvida com sua ponderação e equilíbrio.... Há amigos que somente com sua alegria e riso são capazes de nos arrancar da escuridão onde às vezes se perde nossa alma... Há outros que nos guiam para fora dessa escuridão segurando nossa mão ou mesmo nos abraçando pelos ombros se for preciso.  Um amigo é um tesouro único, já explicava  a raposa ao princepezinho...
Cada amigo cumpre nessa vida a missão de nos ensinar um lado, um modo de ver a vida.... Como um cristal de muitas faces, cada amigo nos leva numa viagem única, na sua ótica e na sua compreensão do mundo... Que jornada rica, que jornada maravilhosa, que aventura incrível é cultivar amigos , flores tão diferentes, num lindo buquê que perfuma nossa passagem no mundo.  Aos meus amigos, obrigada por doarem seu perfume à minha vida !


sábado, 2 de abril de 2011

Inimigo meu


Eu, quando escrevo, me interpreto.
Escrever me ajuda a entender melhor o que se agita dentro de mim. Pois muitas vezes não cabemos dentro de nós mesmos, tamanha é a intensidade e a diversidade das emoções que nos tomam, seja nos elevando, seja nos consumindo.
Eu, quando luto, me reencontro.
Lutar me ajuda a acalmar o que se agita dentro de mim.  Pois me coloca frente a frente com o Oponente, com aquele que teima em afirmar que me domina por ser mais forte que eu. 
Lutando e escrevendo, vou exorcizando meus demônios . Escrevendo e lutando, vou derrubando meu inimigo interior, aquele que sabota meu espírito, que  puxa minha alma  para o  fundo do pântano.  Lutando, vou derrubando o medo, hálito sombrio do Inimigo; escrevendo, vou reafirmando meu caminho, para fora da escuridão.

 Na próxima postagem, volto à Mulher-Esqueleto.  Por enquanto ela fica lá, no fundo das águas, esperando que a puxemos para a tona, que a aceitemos e que a levemos conosco, selando assim o nosso próprio resgate...

quinta-feira, 31 de março de 2011

A Mulher-Esqueleto

A história da Mulher-Esqueleto é uma história de amor que falou fundo à minha alma.  Porque como diz a autora, " para amar  é preciso não só ser forte, mas também sábio.  A força vem do espírito. A sabedoria, da Mulher-esqueleto."
Transcrevo a história e, na próxima postagem, comento...

"Ela havia feito alguma coisa que seu pai não aprovava, embora ninguém mais se lembrasse do que havia sido. Seu pai, no entanto, a havia arrastado até os penhascos, atirando-a ao mar. Lá, os peixes devoraram sua carne e arrancaram seus olhos. Enquanto jazia no fundo do mar, seu esqueleto rolou muitas vezes com as correntes. Um dia um pescador veio pescar. Bem, na verdade, em outros tempos muitos costumavam vir a essa baía pescar. Esse pescador, porém, estava afastado da sua colônia e não sabia que os pescadores da região não trabalhavam ali sob a alegação de que a enseada era mal-assombrada. O anzol do pescador foi descendo pela água abaixo e se prendeu — logo em quê! — nos ossos das costelas da Mulher- Esqueleto. O pescador pensou: "Oba, agora peguei um grande de verdade! Agora peguei um mesmo!" Na sua imaginação, ele já via quantas pessoas esse peixe enorme iria alimentar, quanto tempo sua carne duraria, quanto tempo ele se veria livre da obrigação de pescar. E enquanto ele lutava com esse enorme peso na ponta do anzol, o mar se encapelou com uma espuma agitada, e o caiaque empinava e sacudia porque aquela que estava lá embaixo lutava para se soltar. E quanto mais ela lutava, tanto mais ela se enredava na linha. Não importa o que fizesse, ela estava sendo inexoravelmente arrastada para a superfície, puxada pelos ossos das próprias costelas. O pescador havia se voltado para recolher a rede e, por isso, não viu a cabeça calva surgir acima das ondas; não viu os pequenos corais que brilhavam nas órbitas do crânio; não viu os crustáceos nos velhos dentes de marfim. Quando ele se voltou com a rede nas mãos, o esqueleto inteiro, no estado em que estava já havia chegado à superfície e caía suspenso da extremidade do caiaque pelos dentes incisivos.
— Agh! — gritou o homem, e seu coração afundou até os joelhos, seus olhos se esconderam apavorados no fundo da cabeça e suas orelhas arderam num vermelho forte.
— Agh! — berrou ele, soltando-a da proa com o remo e começando a remar loucamente na direção da terra. Sem perceber que ela estava emaranhada na sua linha, ele ficou ainda mais assustado, pois ela parecia estar em pé, a persegui-lo o tempo todo até a praia. Não importava de que jeito ele desviasse o caiaque, ela continuava ali atrás. Sua respiração formava nuvens de vapor sobre a água, e seus braços se agitavam como se quisessem agarrá-lo para levá-lo para as profundezas.
— Aaagggggghhhh! — uivava ele, quando o caiaque encalhou na praia. De um salto ele estava fora da embarcação e saía correndo agarrado à vara de pescar. E o cadáver branco da Mulher-esqueleto, ainda preso à linha de pescar, vinha aos solavancos bem atrás dele. Ele correu pelas pedras, e ela o acompanhou. Ele atravessou a tundra gelada, e ela não se distanciou. Ele passou por cima da carne que havia deixado a secar, rachando-a em pedaços com as passadas dos seus mukluks. O tempo todo ela continuou atrás dele, na verdade até pegou um pedaço do peixe congelado enquanto era arrastada. E logo começou a comer, porque há muito, muito tempo não se saciava. Finalmente, o homem chegou ao seu iglu, enfiou-se direto no túnel e, de quatro, engatinhou de qualquer jeito para dentro. Ofegante e soluçante, ele ficou ali deitado no escuro, com o coração parecendo um tambor, um tambor enorme. Afinal, estava seguro, ah, tão seguro, é, seguro, graças aos deuses, Raven, é, graças a Raven, é, e também à todo-generosa Sedna, em segurança, afinal. Imaginem quando ele acendeu sua lamparina de óleo de baleia, ali estava ela — aquilo — jogada num monte no chão de neve, com um calcanhar sobre um ombro, um joelho preso nas costelas, um pé por cima do cotovelo. Mais tarde ele não saberia dizer o que realmente aconteceu. Talvez a luz tivesse suavizado suas feições; talvez fosse o fato de ele ser um homem solitário. Mas sua respiração ganhou um quê de delicadeza, bem devagar ele estendeu as mãos encardidas e, falando baixinho como a mãe fala com o filho, começou a soltá-la da linha de pescar.
— Oh, na, na, na. — Ele primeiro soltou os dedos dos pés, depois os tornozelos.
— Oh, na, na, na. — Trabalhou sem parar noite adentro, até cobri-la de peles para aquecê-la, já que os ossos da Mulher-esqueleto eram iguaizinhos aos de um ser humano. Ele procurou sua pederneira na bainha de couro e usou um pouco do próprio cabelo para acender mais um foguinho. Ficou olhando para ela de vez em quando enquanto passava óleo na preciosa madeira da sua vara de pescar e enrolava novamente sua linha de seda. E ela, no meio das peles, não pronunciava palavra — não tinha coragem — para que o caçador não a levasse lá para fora e a jogasse lá embaixo nas pedras, quebrando totalmente seus ossos. O homem começou a sentir sono, enfiou-se nas peles de dormir e logo estava sonhando. Às vezes, quando os seres humanos dormem, acontece de uma lágrima escapar do olho de quem sonha. Nunca sabemos que tipo de sonho provoca isso, mas sabemos que ou é um sonho de tristeza ou de anseio. E foi isso o que aconteceu com o homem. A Mulher-esqueleto viu o brilho da lágrima à luz do fogo, e de repente ela sentiu uma sede daquelas. Ela se aproximou do homem que dormia, rangendo e retinindo, e pôs a boca junto à lágrima. Aquela única lágrima foi como um rio, que ela bebeu, bebeu e bebeu até saciar sua sede de tantos anos. Enquanto estava deitada ao seu lado, ela estendeu a mão para dentro do homem que dormia e retirou seu coração, aquele tambor forte. Sentou-se e começou a batucar dos dois lados do coração: Bom, Bomm!... Bom, Bomm! Enquanto marcava o ritmo, ela começou a cantar em voz alta.
— Carne, carne, carne! Carne, carne, carne!
 E quanto mais cantava, mais seu corpo se revestia de carne. Ela cantou para ter cabelo, olhos saudáveis e mãos boas e gordas. Ela cantou para ter a divisão entre as pernas e seios compridos o suficiente para se enrolarem e dar calor, e todas as coisas de que as mulheres precisam. Quando estava pronta, ela também cantou para despir o homem que dormia e se enfiou na cama com ele, a pele de um tocando a do outro. Ela devolveu o grande tambor, o coração, ao corpo dele, e foi assim que acordaram abraçados um ao outro, enredados da noite juntos, agora de outro jeito, de um jeito bom e duradouro.
As pessoas que não conseguem se lembrar de como aconteceu sua primeira desgraça dizem que ela e o pescador foram embora e sempre foram bem alimentados pelas criaturas que ela conheceu na sua vida debaixo d'água. As pessoas garantem que é verdade e que é só isso o que sabem."


 FIM DA HISTÓRIA

sábado, 26 de março de 2011

O corpo jubiloso

À procura da beleza escondida

Para entendermos melhor o sentido da história da Mulher-Borboleta, do poder feminino que emana do corpo, seja ele como for, grande, pequeno, magro, cheio, com ou sem cicatrizes, seja qual for a forma, a idade, o tipo de cabelo:  o poder da Mulher Selvagem é mágico e latente em todas nós, basta que o despertemos.  E ele anseia por despertar !!! Por abrir as janelas da alma, esse poder é um sol que brilha de dentro pra fora, é como a luz da manhã saindo por portas e janelas em direção ao mundo.... Somos poderosas e belas, simplesmente porque somos mulheres, lobas amantes e maternais, companheiras fiéis à sua alcatéia, caçadoras vorazes daquilo que realmente importa, somos a inspiração do divino, as musas da música, das letras, das artes, da natureza... A natureza é mulher, a Terra é mulher....

Para entendemos melhor o poder subjacente, aquilo que está por baixo, e que emana de nós como a luz dos avatares, reescrevo um trecho da Clarissa Estés onde ela mostra, em dois exemplos, que a beleza existe em cada corpo, inclusive no nosso, só precisamos abrir os olhos para enxergá-la, deixar essa luz apagar conceitos e idéias que os outros, coitados, teimam em querer nos inpigir...  Voltemos pois a aprender com as velhas, com os índios, com os antigos, ou seja, com os que realmente sabem....Boa leitura !!!!


“ Passei por duas experiências decisivas quando estava com  vinte e poucos anos, experiências que contrariavam tudo o que me haviam ensinado sobre o corpo até então.  Quando estava num seminário de uma semana de duração para mulheres, à noite junto ao fogo e perto de fontes termais, vi uma mulher nua de cerca de 35 anos.  Seus seios estavam murchos de amamentar; seu ventre, estriado de dar à luz,  Eu era muito nova e me lembro de ter sentido pena das agressões sofridas pela sua pele fina e clara.  Alguém estava tocando tambores e maracás, e ela começou a dançar, com o cabelo, os seios , a pele, os membros todos se movimentando em direções diferentes.  Como era linda, como era cheia de vida.  Sua graça era de partir o coração,  Eu sempre havia ridicularizado a expressão “furacão nos quadris”. Naquela noite, porém, vi um exemplo.  Vi o poder das suas ancas.  Presenciei o que me haviam ensinado a ignorar:  o poder do corpo de uma mulher quando é animado de dentro para fora.  Quase três décadas mais tarde, ainda posso vê-la dançando no escuro e ainda sinto o impacto da força do corpo.
O segundo despertar envolveu uma mulher muito mais velha.  De acordo com os padrões vigentes, seus quadris eram excessivamente parecidos com peras, seus seios eram ínfimos  em comparação, e suas coxas eram totalmente cobertas por finíssimas veias arroxeadas.  Uma longa cicatriz de alguma cirurgia grave circundava seu corpo, indo desde a coluna vertebral até as costelas, como um corte para descascar maçãs.  Sua cintura devia ter a largura de quatro palmos,
Era, portanto, um mistério o motivo pelo qual os homens zumbiam à sua volta como se ela fosse um favo de mel.   Eles queriam morder suas coxas de pêra, lamber aquela cicatriz, segurar aquele peito, descansar o rosto nas teias das varizes.  Seu sorriso era deslumbrante, seu caminhar, extremamente belo.  E quando ela olhava, seus olhos realmente absorviam o que estava vendo.  Vi novamente o que me haviam a ignorar, o poder no corpo.  O poder cultural do corpo é a sua beleza, mas o poder no corpo é raro, pois a maioria das mulheres o expulsou com torturas ou com vergonha da própria carne."

Por Clarissa Estés,  em Mulheres que correm com os lobos
 

A mulher-borboleta

Reconto a história, que na narração original é bem mais longa e rica em detalhes, tomando a liberdade de usar palavras e metáforas da própria autora Clarissa Estés. Essa história é um ode ao poder feminino, um ode à beleza que há em cada uma de nós, mulheres de todas as formas, de todas as idades, de todas as tribos.  É um estímulo para o reencontro com nós mesmas, como belas criaturas que somos, somente por sermos mulheres. Em um tempo de mulheres-melancia, mulheres-morango e outras tantas figuras patéticas, divido com vocês algumas das verdadeiras faces de nós mesmas, as Mulheres-Borboleta, as Mulheres-Esqueleto, história que contarei mais tarde, a própria Donzela sem Mãos que já habita esse espaço, assim como Vasalisa e sua poderosa intuição.  No melhor espírito Sherazade, senta no teu tapete mágico por um instante , e voa com a Mulher-Borboleta.





" Lá na província longínqua de Puyé, no Novo México, existe o ritual da Mulher-Borboleta.  Descendentes dos apaches, dos navajos, dos hapis e de tantas outras tribos lá se reúnem, como num retorno às suas origens.  Para lá também rumam inúmeros turistas, com seus carros barulhentos,  suas máquinas fotográficas e suas cadeiras de armar. Esses turistas já se esqueceram de seus deuses ancestrais e por isso vão a Puyé observar os que  não esqueceram. Passam horas no calor poeirento, assistindo a uma série de apresentações que culminarão com a dança de uma só pessoa: ela, a Mulher- Borboleta!  A expectativa de se deparar com a frágil, delicada e diáfana Mulher-Borboleta é tremenda. Porém  os turistas ficam perplexos quando surge, aos saltos, María Lujan: Ela é grande, grande mesmo, e velha, muito velha, como uma mulher que voltou do pó; velha como um rio velho, velha como as mais velhas montanhas.  Ela usa uma manta vermelha e preta que deixa à mostra um de seus ombros, e traz asas de borboleta do tipo que as crianças fazem na escola.   Seu cabelo é de um cinza cor de pedra e vai até o chão e seus quadris e a barriga são enormes. Suas pulseiras de contas chocalham como cascavéis, suas ligas de guizos produzem o som da chuva.   Ela salta num pé só, e depois no outro.  Ela abana seu leque de penas por toda a parte.  Ela é a Borboleta que chegou para dar força aos fracos.  Ela é o que a maioria considera não ser forte; a velhice, a borboleta, o feminino.  Ela abana seu leque de penas e saltita porque está derramando pólen espiritual sobre todos os presentes.  Enquanto as tribos a fitam reverentes, os turistas a encaram decepcionados: Aquilo é a Donzela Borboleta? Parecem não mais se lembrar de que,  no mundo dos espíritos, as  mulheres são lobos, os maridos são ursos e as velhas de dimensões avantajadas são borboletas.Sim, é correto que a Mulher Borboleta seja velha e corpulenta, pois ela traz o mundo dos trovões num seio, e o mundo subterrâneo no outro.  Suas costas são a curva do planeta Terra com todos os seus frutos, alimentos e animais.  Na sua nuca, ela traz o sol nascente e o poente.  Sua coxa esquerda guarda todos os pinheiros; sua coxa direita, todas as lobas do mundo. Em seu ventre estão todos os bebês que um dia irão nascer.   A Donzela Borboleta é a força feminina fertilizadora.  Ela poliniza as almas da terra.  Ao transportar o pólen de um lugar para ou outro, ela fecunda por cruzamento, da mesma forma que a alma fertiliza a mente com sonhos...  Ela aproxima os opostos ao tirar um pouco daqui e levar para lá.  A transformação não é nem um pouco mais complicada do que isso.  É isso que a borboleta faz.  É assim que a alma atua.
A Mulher –borboleta corrige a idéia equivocada  de que a transformação é só para os torturados, para os santos, ou apenas para os tremendamente fortes.  O Self não precisa mover montanhas para se transformar.  Um pouco basta.  Um pouco vai longe.  UM POUCO MUDA MUITA COISA.
A intérprete da dança da borboleta tem que ser velha por representar a alma que é velha.  Ela é larga de coxas e ancas por carregar tantas coisas.  Seu cabelo grisalho garante que ela não precisa mais obedecer ao tabu do contato com outras pessoas.  É permitido que ela toque a todos: meninos, bebês, homens, mulheres, os idosos, os enfermos, os mortos.  É seu o privilégio de tocar a todos, esse é o seu poder. Seu corpo é o de La Mariposa, a borboleta. Ela é a intérprete da força instintiva, fertilizante, a que conserta, a que recorda antigas idéias.  Ela é “ La Voz Mitológica”. Ela é a encarnação da Mulher Selvagem."
FIM

Reflexões da autora:

  Está errada a imagem vigente da nossa cultura do corpo exclusivamente como escultura.  O corpo não é de mármore.  Não, não é essa a sua finalidade.  A sua finalidade é de proteger, conter, apoiar e atiçar o espírito e alma em seu interior, a de ser um repositório para as recordações, a de nos encher de sensações – ou seja, o supremo alimento da psique.  É a de nos elevar e de nos impulsionar, de nos impregnar de sensações para provar que existimos, que estamos aqui, para nos dar uma ligação com a terra, para nos dar volume, peso. É errado pensar no corpo como um lugar que abandonamos para alçar vôo até o espírito.  O corpo é o detonador dessas experiências.  Sem o corpo não haveria a sensação de entrada em algo novo, de elevação, de altura, leveza.  Tudo isso provém do corpo.  Ele é o lançador de foguetes.  Na sua cápsula, a alma espia lá fora a misteriosa noite estrelada e se deslumbra.
 * * *


A mulher selvagem pode compreender seu corpo, não como um peso morto que estamos condenadas a carregar por toda a vida, não como uma besta de carga, mimada ou não, que nos carrega por aí pela vida inteira, mas como uma série de portas, sonhos e poemas através dos quais podemos obter todo o tipo de aprendizado e conhecimento,  Na psique selvagem, compreende-se o corpo como um ser por seu próprios méritos, que nos ama, que depende de nós , para quem de vez em quando, somos a mãe e que, de vez em quando, representa a mãe para nós.

terça-feira, 8 de março de 2011

Para os que têm medo

Pode parecer sem pé nem cabeça mas há dentro de mim uma urgência em dividir com vocês um fragmento de texto que li sobre como vencer o medo.  O medo só se vence com enfrentamento. Não tem teoria que acalme um coração assustado, só entrando na jaula da fera você poderá domá-la.  Claro, há que se equipar... Ninguém vai pra batalha sem um escudo que seja, e se tivermos uma espada poderosa, melhor ainda.  Mesmo Davi se armou de uma funda para enfrentar o gigante Golias. Se nada tivermos como arma, fechemos os punhos e façamos de nós mesmos as nossas armas, e por isso aprendamos a lutar, a não ter medo do golpe, da investida, aprendamos a olhar no olho do inimigo para poder golpeá-lo no ponto certo, e derrubá-lo de uma vez.  Nada de fazer acordinhos  ou concessões com os nossos medos, nada de Síndrome de Estocolmo com eles, é Muay Thai , é pra derrubar de vez !
Então li esse texto que diz assim:
 "Comece.  É assim que se limpa um rio poluído. Se você tiver medo, tiver receio de fracassar, digo-lhe que comece já,  fracasse se for preciso, recupere-se, recomece.  Se fracassar de novo, fracassou.  E daí?  Comece novamente.  Não é o fracasso que nos detém, mas é a relutância em recomeçar que nos faz estagnar.  Se você estiver apavorado, qual o problema? Se você estiver com medo de que algo vá dar um salto para mordê-lo, então pelo amor de Deus, resolva isso imediatamente.  Deixe que seu medo surja e o morda para que você possa superá-lo e seguir adiante.  Você ira superá-lo.  O medo acaba passando.  Nesse caso, é melhor que você o encare de frente, que o sinta e que o supere do que continuar a usá-lo como pretexto para evitar limpar o rio..." 
Deixe que o seu medo lhe morda.  Enfie voluntariamente a mão no cesto da cobra, sinta a mordida, a queimação se espalhando na carne, o gelo tomando conta do peito.  Agarre com força esse medo , tire-o do cesto, olhe nos olhos dele e pergunte a ele: E agora?
O medo é venenoso, sem dúvida.  Paralisante, é certo.  Mas não é letal a não ser que o permitamos.  Assim, após a primeira mordida, começamos a ficar imunes, mais fortes, mais sábios.  Começamos inclusive a reconhecer o medo quando ele se apresenta mascarado... Nada de acordos com ele, volto a insistir.   Ter medo é inerente da condição humana, e enfrentá-lo é a própria caminhada. Pois o medo da dor é a própria dor, o  medo do medo é o próprio medo.  Podemos enfrentá-lo.  Sim, podemos com ele.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O príncipe e o vendedor

Li em algum lugar uma opinião sobre a diferença entre o ignorante e o inocente.  O ignorante não sabia de nada e escolheu  seguir o bem.  O inocente sabia de tudo e apesar disso escolheu seguir o bem. 
Nesses tempos tão conturbados e confusos, a paz do inocente é talvez o caminho da tranquilidade que buscamos.  Tranquilidade interior, pois só conseguiremos barrar a onda pertubadora da vida moderna, com tantos apelos e exigências, se conseguirmos encontrar esse oásis dentro de nós mesmos...
E tem a ver com o tempo.  O tempo é senhor de nossa vida e na maioria das vezes, nosso algoz.  Já falei do tempo aqui antes, do nosso tempo versus o tempo de Deus. Esse tempo que se marca no relógio ( seja analógico ou digital, já reparou que tudo hoje em dia tem relógio? Celular tem relógio, microondas tem relógio, geladeira tem relógio...) esse tempo martela dentro de nosso peito, atrasado, atrasado, atrasado... É como o coelho branco da Alice, esbaforido, correndo,  com medo da tirânica rainha de copas cortar-lhe a cabeça: É tarde, é tarde, alô, adeus, é tarde, é tarde, é tarde...
E aí, mais uma vez, me lembrei dele.  Até estranhei ele não ter aparecido aqui até agora.  Para fazer jus e como para me desculpar dessa ausência, levei um tempo procurando uma boa imagem dele.  Escolhi a tradicional, pois gosto dele assim, com sua espada, quase um Dom Quixote: ei-lo.  O Pequeno Príncipe.  Talvez a personificação dessa inocência que citei no início: desenha-me um carneiro.... 

O Princepezinho, na sua peregrinação, que é a peregrinação de todos nós,  encontrou um vendedor.

"- Bom dia, disse o principezinho.
- Bom dia, disse o vendedor.
Era um vendedor de pílulas aperfeiçoadas que aplacavam a sede. Toma-se uma por semana e não é mais preciso beber.
- Por que vendes isso? perguntou o principezinho.
- É uma grande economia de tempo, disse o vendedor. - Os peritos calcularam - A gente ganha cinqüenta e três minutos por semana.
- E que se faz, então, com os cinqüenta e três minutos?
- O que a gente quiser...
- Eu, pensou o principezinho, se tivesse cinqüenta e três minutos para gastar, iria caminhando passo a passo, mãos no bolso, na direção de uma fonte. . ."

O segredo do grande relógio está dentro de nós.  Diminuindo o passo, poderemos saborear o caminho.  Rumemos sem pressa, mãos nos bolsos, em direção à fonte...

O maior príncipe do mundo


sábado, 12 de fevereiro de 2011

O mérito da Donzela

"E lá partimos nós, sob uma luz diferente, sob um céu diferente, com um chão desconhecido, por baixo das nossas botas.  E no entanto, estamos vulneráveis, pois não temos como nos agarrar, nos segurar, nos apoiar, como saber - pois não temos mãos."




A Donzela sem Mãos - Última parte
 
"Ela caminhou muito.  O sol do meio-dia fez que o suor escorresse riscando a sujeira no seu rosto.  O vento desgrenhou tanto seu cabelo até que ele mais parecia um ninho de cegonhas com gravetos enfiados de qualquer jeito.  No meio da noite, ela chegou a um pomar real onde a lua fazia reluzir os frutos das árvores.
Ela não podia entrar já que o pomar era cercado por um fosso.  Caiu, então de joelhos, pois estava faminta.  Um espírito etéreo vestido de branco surgiu e fechou a comporta para esvaziar o fosso.
A donzela caminhou entre as pereiras sabendo de algum modo que cada fruto perfeito havia sido contado e anotado, e que eles também eram vigiados. Mesmo assim, um ramo curvou-se bem baixo para que ela o alcançasse, fazendo o galho estalar.  Ela tocou a pele dourada da pera com os lábios e comeu ali em pé ao luar, com os braços atados em gaze,  os cabelos desgrenhados, parecendo um mulher de lama, a donzela sem mãos.
O jardineiro viu tudo mas reconheceu a magia do espírito que protegia a donzela e não se intrometeu. Quando ela acabou de comer  aquela única pera, ela se retirou atravessando o fosso e foi dormir no abrigo do bosque.
No dia seguinte, o rei veio contar suas peras.  Ele descobriu que uma estava faltando mas, olhando por toda a parte, não conseguiu encontrar o fruto desaparecido.  Quando lhe perguntaram, o jardineiro tinha a explicação.
- Ontem à noite, dois espíritos esgotaram o fosso, entraram no jardim à luz do luar e um deles que era mulher e não tinha mãos comeu a pera que se oferecia a ela.
O rei disse que ia montar guarda aquela noite.  Quando escureceu, ele veio com o jardineiro e com o mago, que sabia conversar com espíritos.  Os três sentaram-se embaixo de uma árvore e ficaram vigiando.  À meia noite, a donzela veio flutuando pela floresta, com as roupas em farrapos, o cabelo desfeito, o rosto sujo, os braços sem mãos e o espírito de branco a seu lado.
Eles entraram no pomar na mesma forma que antes.  Mais uma vez a árvore curvou-se graciosamente para chegar ao seu alcance, e a donzela sorveu a pera que estava na ponta do ramo.  O mago se aproxomou-se deles,  mas não muito.
- Vocês são desse mundo ou não são desse mundo? - perguntou ele.
- Eu fui outrora do mundo - respondeu a donzela.  No entanto, não sou desse mundo.
- Ela é humana ou é espírito? - perguntou o rei ao mago, e o mago respondeu que era as duas coisas.  O coração do rei deu um salto, e ele se apressou a chegar até ela.
- Não renunciarei a você - exclamou ele. - Deste dia em diante cuidarei de você.
No castelo ele mandou fazer para ela um par de mãos de prata, que foram amarradas aos seus braços.  E foi assim que o rei se casou com a donzela sem mãos.
Passado algum tempo, o rei teve que combater num reino distante e pediu à mãe que cuidasse da jovem rainha, pois ele a amava de todo o coração.
- Se ela der à luz um filho, mande me avisar imediatamente.
A jovem rainha deu à luz um belo bebê, e a mãe do rei mandou um mensageiro até o rei para lhe dar as boas novas.  No entanto, a caminho, o mensageiro se cansou e, chegando a um rio, ficou cada vez com mais sono. Afinal, adormeceu profundamente às margens do rio.  O Diabo saiu de trás de uma árvore e trocou a mensagem por uma que dizia que a rainha havia dado à luz uma criança que era metade cachorro.'"  ( Em outra parte do livro, a autora comenta que há uma versão da história mais explícita, onde a mensagem do diabo afirma que a rainha tinha dado à luz uma criança metade cachorro por ter copulado com as  feras da floresta).  O rei ficou horrorizado com a notícia, mas mesmo assim mandou de volta uma carta recomendando que amassem a rainha e que cuidassem dela nesse terrível transe. O rapaz que vinha trazendo a mensagem mais uma vez chegou ao rio, e sentindo a cabeça pesada como se tivesse comido todo um banquete, logo adormeceu junto à água.  Foi quando o Diabo mais uma vez apareceu e trocou a mensagem para "Matem a rainha e a criança".
A velha mãe ficou abalada com essa ordem e mandou um mensageiro pedindo confirmação.  Corriam os mensageiros de um lado para outro, cada um adormecendo junto ao rio enquanto o Diabo trocava as mensagens para outras que iam ficam ficando cada vez mais apavorantes, sendo que a última dizia: "Guardem a língua e os olhos da rainha como prova de que ela está morta."
A velha mãe não pôde suportar a idéia de matar a doce rainha.  Em vez disso, ela sacrificou uma corça, arrancou sua língua e seus olhos e os escondeu.  Em seguida, ela ajudou a jovem rainha a atar o bebê junto ao peito e, cobrindo-a com um véu, disse que ela precisava fugir para salvar a  vida.  As mulheres choraram e se beijaram na despedida.
A jovem rainha vagueou até chegar à floresta maior e mais selvagem que jamais vira.  Na tentativa de procurar um caminho, ela procurava passar por cima, pelo meio e por volta do mato.  Quase ao escurecer, o mesmo espírito de branco de antes apareceu e a conduziu a uma pobre estalagem de gente simpática da floresta.  Uma outra donzela vestida de branco levou a rainha para dentro e demonstrou saber seu nome,  A criança foi posta num berço.
- Como você sabe que sou uma rainha? - perguntou a donzela.
- Nós da floresta acompanhamos esses casos, minha rainha.  Agora descanse.
E assim a rainha ficou sete anos na estalagem e se sentia feliz com sua criança e com sua vida.  Aos poucos suas mãos lhe voltaram, primeiro como pequeninas mãozinhas de bebê, depois como mãos de menina e afinal como mãos de mulher.
Enquanto isso, o rei  voltou da guerra, e sua velha mãe se lamentou com ele.
- Por que você quis que eu matasse dois inocentes? - perguntou ela, mostrando-lhe os os olhos e a língua da corça.
Ao ouvir a terrível história, o rei cambaleou e caiu a chorar inconsolável. A mãe viu sua dor e contou que os olhos e a língua eram de uma corça e que ela havia mandado a rainha e o filho fugir pela floresta adentro.
O rei jurou não mais comer nem beber e viajar até onde o céu continuasse azul para encontrar os dois. Ele procurou por sete anos a fio.  Suas mãos ficaram negras; sua barba, de um marrom semelhante ao do musgo; seus olhos avermelhados e ressecados.  Todo esse tempo, ele não comeu nem bebeu nada, mas uma força maior do que ele o ajudou a se manter vivo.
Afinal, ele chegou à estalagem mantida pelo povo da floresta.  A mulher de branco convidou-o a entrar, e ele se deitou de tão cansado.  A mulher colocou um véu sobre o rosto dele, e ele adormeceu.  Quando ele chegou à respiração do sono profundo, o véu se enfunou e escorregou aos poucos do seu rosto.  Ao despertar, ele encontrou uma linda mulher e uma bela criança que o contemplavam.
- Sou sua esposa, e este é seu filho.  - O rei queria acreditar, mas via que  a donzela tinha mãos. - Com todas as minha aflições e com meus bons cuidados, minhas mãos voltaram a crescer. - disse a donzela. E a mulher de branco trouxe as mão de prata que estavam guardadas como um tesouro numa arca.  O rei ergueu-se e abraçou a mulher e o filho, e naquele dia  houve uma alegria imensa na floresta.
Todos os espíritos e os ocupantes da estalagem fizeram um belo banquete.  Depois, o rei, a rainha e o filho voltaram para a velha mãe, realizaram um segundo casamento e tiveram muitos outros filhos, todos os quais contaram essa história para muitos outros filhos, todos os quais contaram essa história para outros cem, que contaram essa história para outros cem, exatamente com vocês fazem parte dos outros cem a quem eu a estou contando."         

== FIM DA HISTÓRIA  ==

Quem gostou da história e quiser conhecer os significados implícitos de cada elemento ( o mago, o rei, a macieira florida, o Diabo, o moinho, o fosso, a pera ou a própria donzela) deve ir correndo ler as dissertações da Clarissa Estés.
De minha parte gostaria de compartilhar com vocês alguns pensamentos:
Se  a Donzela pudesse escolher não sofrer a dor da mutilação, nao teria ela feito essa escolha?  Se pudesse não ter vivido a decepção com os pais, a sensação de traição, de abandono, de falta de proteção, se pudesse não ter tido dizimados seus sonhos juvenis, não teria ela escolhido esse caminho? 
No entanto a dor se apresenta,  muitas vezes, inevitável , e por isso temos que aprender a enfrentá-la.  A dor é brutal.  A dor nos violenta, seja física ou emocionalmente, porque ataca sem piedade onde estamos mais vulneráveis.   A dor nos chicoteia, sem pena alguma.
O mérito da Donzela, a meu ver,  encontra-se no fato de seguir adiante e vencer a dor.  De não aceitar-se trancar no exílio, mesmo que de ouro e prata, mas sair perambulando sem nada, sem mãos, ao encontro de seu destino.  Se a Donzela não tivesse partido, não teria encontrado seu rei, não teria tido seu filho, e não teria , mais uma vez partindo, alcançado o verdadeiro conhecimento de si mesma e, consequentemente, o conhecimento do seu poder. 
Mais uma coisa:  na parte inicial da história, na terceira tentativa sem sucesso do Diabo de levar a donzela, diz-se que ele foi embora para sempre.  Ilusão, pois eis que ele surge, de novo de trás de uma árvore, trocando as mensagens e criando confusão e desencontro.  Assim a importância do discernimento, representado pela Rainha-Mãe, é tão fundamental em nossa caminhada.  Farejar, ouvir, prestar atenção à nossa intuição ( a boneca de Vasalisa), são habilidades que trazemos, e que devemos exercitar.  E principalmente, permitir que o "espírito de branco" se aproxime de nós, que seja nosso guia e nosso protetor, seguindo sempre ao nosso lado, reconstruindo nossas mãos, nossa vida e nossa fé.
A vitória da Donzela