sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A donzela sem mãos

Atendendo a pedidos, eis a história da Donzela sem Mãos. Trancrevo-a tal e qual está no livro  da Clarissa Estés, para não perder nenhum detalhe, e para não privar os leitores do estilo apaixonante da autora.
Senta que lá vem história !!!!! 

"Era uma vez, há alguns dias, um homem que ficava na estrada e ainda possuía uma pedra enorme de fazer farinha com  a qual moía o cereal da aldeia.  Esse moleiro estava passando por dificuldades e não lhe restava nada além da enorme pedra de moinho num barracão e da grande macieira florida atrás da construção.
Um dia, quando ele entrava na floresta com seu machado de gume de prata para cortar lenha, um velho estranho surgiu de trás de uma árvore.
- Não há necessidade de você se torturar cortando lenha – disse o velho em tom engambelador. – Posso adorná-lo de riquezas se você  quiser  me dar o que está atrás do seu moinho.
- O que está atrás do meu moinho a não ser a macieira florida? – perguntou-se o moleiro, concordando com a proposta do velho.
- Dentro de três anos, virei buscar o que é meu – disse o estranho, rindo à socapa, e foi embora a mancar, desaparecendo por entre os troncos das árvores.
O moleiro encontrou sua mulher no caminho.  Ela havia saído correndo de dentro de casa, com o avental voando e o cabelo desgrenhado.
- Marido, marido meu, quando bateu a hora, surgiu na nossa casa um relógio mais bonito, nossas cadeiras rústicas foram trocadas por cadeiras enfeitadas de veludo, nossa pobre despensa está repleta de carne de caça, nossas arcas e baús transbordam de tão cheios.  Diga-me, por favor, como isso aconteceu .  -  E neste exato momento, anéis de ouro apareceram nos seus dedos e seu cabelo foi puxado e preso num arco dourado.
- Ah – disse o moleiro, assombrado enquanto seu próprio gibão passava a ser de cetim,  Diante de seus olhos, seus sapatos de madeira com o salto tão gasto que ele caminhava inclinado para trás também se transformaram em finos sapatos .  – Bem, isso foi um desconhecido – disse ele, ofegante. – Deparei-me com um homem estranho, com uma sobrecasaca escura, na floresta,  E ele me prometeu enorme fortuna se eu lhe desse o que está atrás do nosso moinho.  Ora, mulher, claro que podemos plantar outra macieira.
- Ai, marido meu ! – lamentou-se a mulher, dando a impressão de ter recebido um golpe mortal.  – O homem de casaco escuro era o Diabo, e o que está atrás do do moinho é a árvore, sim, mas nossa filha também está lá varrendo o quintal com uma vassoura de salgueiro.
E assim os pais foram cambaleando para casa, derramando lágrimas em seus belos trajes.  A filha permaneceu sem se casar durante três anos e tinha o temperamento como das primeiras maçãs doces da primavera.  No dia em que o Diabo veio apanhá-la, ela se banhou, pôs um vestido branco e  ficou parada num círculo de giz que ela mesma traçara à sua volta. Quando o Diabo estendeu  a mão para agarrá-la, uma força invisível o lançou do outro lado do quintal.
- Ela não pode mais banhar-se – berrou ele.  Ou não vou conseguir me aproximar dela. - Os pais ficaram apavorados e algumas semanas se passaram em que ela não se banhou até que seu cabelo ficou emaranhado; suas unhas, negras; sua pele, acinzentada; suas roupas encardidas e duras de sujeira.
Então, com a donzela cada dia mais parecida com um animal, surgiu mais uma vez o Diabo.  No entanto, a menina chorou, e suas lágrimas escorreram pelas mãos e pelos braços.  Agora, suas mãos e seus braços estavam alvíssimos e limpos.  O Diabo ficou furioso.
- Cortem-lhe fora as mãos, do contrário não vou poder me aproximar dela. 
- Você quer que eu corte as mãos da minha própria filha ? – disse o pai, horrorizado.
- Tudo aqui irá morrer – berrou o Diabo.  – Você, sua mulher e todos os campos até onde sua vista alcance.
O pai ficou tão apavorado que obedeceu e, pedindo perdão à filha, começou a afiar seu machado de gume de prata .  A filha conformou-se.
- Sou sua filha.  Faça o que deve fazer.
E foi o que ele fez.  No final ninguém poderia dizer quem gritou mais alto, a filha ou o pai.  Terminou, assim, a vida da menina da forma que ela conhecia. 
Quando o Diabo voltou, a menina havia chorado tanto que os tocos que restavam dos seus braços estavam novamente limpos, e o Diabo foi mais uma vez atirado para o outro lado do quintal quando tentou agarrá-la.  Lançando maldições que provocavam pequenos incêndios na floresta, ele desapareceu para sempre, pois havia perdido todo o direito sobre ela. 
O pai havia envelhecido cem anos, e sua esposa também.  Como autênticos habitantes da floresta, eles continuaram como podiam.  O velho pai fez a oferta de manter a filha num castelo de imensa beleza e riqueza pelo resto da vida, mas a filha disse achar mais condizente que se tornasse mendiga e dependesse da bondade dos outros para seu sustento.  E assim ela fez com que atassem seus braços com gaze limpa e ao raiar do dia ela se afastou da sua vida como havia sido até então.
= FIM DA PRIMEIRA PARTE =


domingo, 6 de fevereiro de 2011

A caveira incadescente - o destino de Vasalisa

Baba Yaga voando em seu caldeirão

Voltando ao casebre no fundo da floresta sombria, encontramos Vasalisa despertando de seu sono e encontrando as tarefas cumpridas pela boneca.  Baba Yaga, ao chegar, fica satisfeita de ver tudo pronto mas ao mesmo tempo desdenha da capacidade da menina, dizendo que ela teve apenas sorte.  Nesse momento, a velha convoca seus servos invisíveis e pares de mãos surgem flutuando no ar para raspar e esmagar o milho, criando uma poeira dourada.
Baba Yaga mostrou então à Vasalisa um monte de estrume no quintal, onde havia milhões de sementes de papoula.  A velha ordenou que a menina separasse as sementes do estrume, fazendo uma pilha só com sementes e um monte somente de estrume, e que todo o serviço devia estar pronto quando Baba Yaga depertasse do seu sono.  Vasalisa nervosa consulta à boneca, e essa a tranquiliza, mandando-a descansar também, pois ela faria o serviço e tudo ficaria bem.
Assim, quando  a megera acordou, a tarefa estava finalizada e ela chamou os servos invisíveis para prensar o óleo das sementes de papoulas.  Vasalisa toma coragem e faz perguntas à velha sobre os cavaleiros que havia visto mas nada questiona sobre os pares de mãos que flutuam no ar.  Baba Yaga acha a menina muito ajuizada e pergunta o que a fez ser assim.
- Foi a bênção da minha mãe - disse Vasalisa, sorrindo.
- Bênção?! - guinchou Baba Yaga - Bênção?! Não precisamos de bênção nenhuma aqui nesta casa. É melhor você procurar seu caminho, filha. - E foi empurrando Vasalisa para o lado de fora - Vou lhe dizer uma coisa, menina. Olhe aqui! - Baba Yaga tirou uma caveira de olhos candentes da cerca e a enfiou numa vara. - Pronto! Leve esta caveira na vara até sua casa. Isso! Esse é o seu fogo. Não diga mais uma palavra sequer. Só vá embora.
A boneca começou a a saltar no bolso do avental, sinalizando que era hora de partir.  Era noite  e Vasalisa partiu rápido, caminhou resoluta pela floresta, a caveira na vara derramando luz nas trevas .através dos olhos , boca, e buraco do nariz.  Vasalisa teve medo daquela caveira poderosa e por um momento pensou em jogá-la fora mas a caveira falou com ela e a acalmou, dizendo que continuasse e levasse o fogo para casa.
Quando Vasalisa ia se aproximando da casa, a madrasta e suas filhas olharam pela janela e viram uma luz estranha que vinha dançando pela mata. Cada vez chagava mais perto. Elas não podiam imaginar o que aquilo seria. Já haviam concluído que a longa ausência da menina indicava que ela a essa altura estava morta, que seus ossos haviam sido carregados por animais, e que bom que ela havia desaparecido! Vasalisa chegava cada vez mais perto de casa. E, quando a madrasta e suas filhas viram que era ela, correram na sua direção dizendo que estavam sem fogo desde que ela havia saído e que, por mais que tentassem acender um, ele sempre se extinguia.
Vasalisa entrou na casa, sentindo-se vitoriosa por ter sobrevivido à sua perigoda jornada e por ter trazido o fogo para casa. No entando, a caveira na vara ficou observando cada movimento da madrasta e das duas filhas, queimando-as por dentro. Antes de amanhecer, ela havia reduzido a cinzas aquele trio perverso.

* * *  FIM * * *

De uma riqueza de símbolos ímpar,  a imagem da caveira incadescente numa vara refulgindo no meio da escuridão é o que mais me intriga e apaixona. Descobri que essa crença absoluta que a caveira é o símbolo do mal nos foi incutida, há muitos séculos, por uma religião intolerante, e que não é bem assim... Em muitas culturas o culto sagrado e respeitoso aos ancestrais tinha a caveira como a catedral  do conhecimento que os antigos deixavam para os mais jovens, e através das órbitas vazias, janelas dessa catedral, fluía a luz do conhecimento que deveria passar de geração para geração.  Alíás, em uma conversa com uma sábia sobre enterro ou cremação dos que já partiram para o outro lado, refleti que temos uma relação muito ruim  com os nossos ossos, fruto também dessa crença que nos foi incutida... E me lembrei de um outra história sobre ossos, "A cantadora de ossos"...  E também outra, " A Mulher-Esqueleto"... Compartilharei com vocês essas histórias em outros encontros nossos, ao redor dessa fogueira virtual que é esse papiro de Nefertiti.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Era uma vez...

Vou contar do meu jeito:

No interior simples e longínquo da Rússia , uma mãe no leito de morte dá à sua amada filha, Vasalisa, uma pequena boneca de pano.  Essa boneca deverá ser a companheira inseparável da menina, quando a mãe se for. Ela nunca estará só enquanto estiver com a boneca, e deverá consultá-la sobre tudo, ouvindo sempre sua opinião.  Após a morte da mulher, o pai, depois de pranteá-la, casou-se novamente, como em todo bom conto de fadas, com uma mulher que tinha duas filhas.  O pai , ingênuo ou enfeitiçado por essa nova vida, não percebe que a madrasta não suporta Vasalisa, e quando ele está ausente, faz, junto com as filhas, o que é possivel para explorar e atazanar Vasalisa.  Até que uma noite, fingindo que o fogo da casa se apagara, mandam Vasalisa para a floresta, em busca de Baba Yaga, a terrível bruxa, única que poderia dá-las o fogo para aquecer e cozinhar.
Vasalisa parte então floresta adentro, acompanhada apenas de sua boneca, sem desconfiar que às suas costas as malvadas já comemoravam a morte certa da menina. No meio da densa e assustadora floresta, a cada bifurcação do caminho, Vasalisa consultava a boneca que caminho seguir, e depois a alimentava com pequeninos pedacinhos de pão. Apesar do medo, Vasalisa avançava segurando dentro do bolso do avental a querida boneca, que a guiava cada vez mais para o coração da escuridão.  Vasalisa viu um cavaleiro  branco num cavalo branco trazendo o dia; mais tarde um cavaleiro vermelho num cavalo vermelho trouxe o sol, e por fim um calvaleiro vestido de negro trouxe a noite, entrando direto num casebre feito de caveiras e ossos, onde morava a terrível Baba Yaga.  A casa ficava em cima de pernas de galinha, andava de um lado para outro, às vezes girando como um pião. A bruxa se movia dentro de um caldeirão voador e era tão feia e assustadora como toda bruxa deve ser. Era sabido que Baba Yaga comia suas vítimas, e todos aqueles ossos e caveiras pareciam não desmentir tal fato.  Gritando de seu caldeirão e segurando sua vassoura, Baba Yaga irritada questiona a menina sobre o  que ela quer.
- Vovó, vim apanhar fogo.  Está frio na minha casa e sem ele o meu pessoal vai morrer.
- Ah, sei.  Conheço seu pessoal...Você deixou o fogo apagar, sua inútil.  E o que a faz pensar que eu lhe daria a chama?
- Porque estou pedindo - respondeu Vasalisa, depois de consultar a boneca.
- Essa é a resposta certa.  Mas não lhe darei o fogo se não realizar  algumas tarefas pra mim.  E se não as realizar... - ameaçou - você vai morrer, minha filha.
E assim Baba Yaga ordenou a Vasalisa que lavasse a roupa, varresse a casa e o quintal, preparasse a comida e ainda separasse o milho mofado do milho são. A velha acrescentou que sairia e quando voltasse tudo deveria estar pronto, caso contrário, a menina seria o banquete.
Vasalisa, nervosa, consultou a boneca sobre o que fazer, e essa a orientou que dormissse pois ela cuidaria  de tudo..
CONTINUA  NA PRÓXIMA POSTAGEM !

O sono de Vasalisa


O adeus à Vasalisa

Sempre gostei de histórias.  De contos de fadas, de lendas, de parábolas.  Das fábulas de Esopo e dos contos de Grimm.  Das grandiosidades mitológicas e da singeleza do folclore.  De Sherazade, transformando o seu destino trágico em felicidade através das histórias derramadas noite após noite na cama do Califa.  Nos últimos tempos tive oportunidade de entrar em contato com muitas histórias inusitadas, desconhecidas ou mesmo aquelas histórias que, quando as ouvimos, despertam em nós um sentimento de resgate de coisas há muito aprendidas, e depois adormecidas.  Assim me deparei com histórias como a do assustador Barba Azul , a qual nunca havia ouvido direito; a lenda da Mulher-Esqueleto e da Mulher com pele de foca , a interpretação de toda a jornada do Patinho Feio e o drama dos enlouquecedores Sapatinhos Vermelhos. Reencontrei a triste história da Vendedora de Fósforos, livro que ganhei na infância, e conheci Baubo, de quem já falei aqui.  Porém nenhuma delas me impressionou tanto como Vasalisa e a Boneca, talvez somente outra de igual impacto, a Donzela sem mãos.
Gostaria de compartilhar com vocês a história de Vasalisa.  Essa história me fez enxergar coisas que eu só intuía, como a síndrome da Gata Borralheira explorada (porque se deixava explorar) e me fez desejar assistir novamente "A viagem de Chihiro" , agora com os virtuais óculos 3D do discernimento... Pois ao ler Vasalisa e a Boneca, reencontrei a Velha do filme, a Baba Yaga,  a Velha que Sabe, a Mãe Selvagem do Self.  Nessa história, Vasalisa realiza sua jornada de busca e de conhecimento, enfrentando e vencendo  seus medos, deixando de ser a pobre menina e se tornando uma poderosa mulher.  A Boneca, que a acompanha sempre, é sua intuição, que a guiará em segurança nessa viagem pela floresta.  Viagem que, chegado o momento de cada um, devemos empreender todos nós...
Curiosos para conhecer Vasalisa, a Boneca e a terrível Baba Yaga?  Então aguardem...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

De como Baubo ( a anciã) salvou Deméter ( a mulher fecunda), Perséfone ( a donzela) e toda a terra

Segue a história,  transcrita do livro da Clarissa:

"Deméter, a mãe-terra, tinha uma linda filha chamada Perséfone, que estava um dia brincando ao ar livre.  Perséfone encontrou por acaso uma flor de rara beleza e estendeu os dedos para tocar seu lindo cálice.  De repente, a terra começou a tremer e uma gigantesca fenda se abriu em ziguezague.  Das profundezas da terra chegou Hades, deus dos Infernos.  Ele chegou alto e majestoso num biga negra puxada por quatro cavalos da cor de fantasmas. Hades apanhou Perséfone, levando-a para sua biga, em meio a uma confusão de véus e sandálias.  Ele guiou,  então, seus cavalos cada vez mais para dentro da terra.  Os gritos de Perséfone foram ficando cada vez mais fracos à medida que a fenda foi se fechando como se nada tivesse acontecido.  Por toda a terra, abateu-se um silêncio e o perfume das flores esmagadas.
E a voz da donzela a gritar ecoou nas pedras das montanhas e borbulhou num lamento vindo do fundo do mar.  Deméter ouviu os gritos das pedras.  Ela ouviu, também, o choro das águas.  Arrancou, então, a grinalda dos seus cabelos imortais, deixou cair de cada ombro seus véus escuros e saiu a sobrevoar a terra como uma ave enorme, procurando, chamando por sua filha.
Naquela noite, uma velha à frente de uma gruta comentou com suas irmãs que havia ouvido três gritos naquele dia; um, o de uma jovem que gritava de pavor; um outro que implorava ajuda; e o terceiro, o de uma mãe que chorava.
Não se via Perséfone em parte alguma.  E assim começou a procura longa e enlouquecida de Deméter por sua filha querida.  Deméter esbravejava , chorava, gritava, fazia perguntas, procurava debaixo, dentro e em cima de todos os acidentes geográficos, implorava por misericórdia, implorava pela morte, mas não conseguia encontrar sua filha amada.
Assim, ela, que havia gerado o crescimento perpétuo de tudo, amaldiçoou todos os campos férteis do mundo, gritando na sua dor.
- Morram !  Morram!  Morram!
Em decorrência da maldição de Deméter, nenhuma criança poderia nascer, nenhum trigo poderia crescer para se fazer pão, nenhuma flor para as festas, nenhum ramo para os mortos.  Tudo ficou murcho e esgotado na terra crestada e nos seios secos. 
A própria Deméter não mais se banhava.  Seus mantos estavam encharcados de lama;  seus cabelos pendiam em cachos imundos. 
Muito embora a dor no seu coração fosse tremenda, ela não se entregava.  Depois de muita investigação, de muitos pedidos e de muitos incidentes, tudo levando a nada, ela afinal perdeu as forças ao lado de um poço numa aldeia onde não era conhecida.  E quando recostou seu corpo dolorido na pedra fresca do poço, chegou ali uma mulher, ou melhor, uma espécie de mulher.  E essa mulher chegou dançando até Deméter, balançando os quadris de um jeito que sugeria a relação sexual, e balançando os seios nessa sua pequena dança.  E quando Deméter a viu, não pôde deixar de sorrir um pouco.
A fêmea que dançava era realmente mágica, pois não tinha nenhum tipo  de cabeça , seus mamilos eram seus olhos, sua vulva era sua boca.  Foi com essa boquinha que ela começou a regalar Deméter com algumas piadas picantes e engraçadas.  Deméter começou a sorrir, depois deu um risinho abafado e em seguida uma boa gargalhada.  Juntas, as duas mulheres riram, a pequena deusa do ventre, Baubo, e a poderosa deusa mãe da terra, Deméter.
E foi exatamente esse riso que tirou Deméter de sua depressão e lhe deu energia para prosseguir na sua busca pela filha,  que acabou em sucesso, com a ajuda de Baubo, da velha Hécate, e do sol Hélios.  Restituíram Perséfone à sua mãe.  O mundo, a terra e o ventre das mulheres voltaram a viscejar."

domingo, 16 de janeiro de 2011

O obsceno sagrado - As deusas sujas - Baubo , a deusa do ventre

De volta à Mulher Selvagem....
Transcrevi trecho do livro "Mulheres que correm com os lobos", de Clarissa Pinkola Estés, porque não saberia passar com minhas próprias palavras ...

"Há um ser que vive no subterrâneo selvagem das naturezas das mulheres.  Essa criatura faz parte da nossa natureza sensorial e, como qualquer animal completo, possui seus próprios ciclos naturais e nutritivos.  Esse ser é curioso, gregário, transbordante de energia em certas horas, submisso em outras.  Ele é sensível a estímulos que envolvam os sentidos: a música, o  movimento, o alimento, a bebida, a paz, o silêncio, a beleza, a escuridão.
É esse aspecto da mulher que tem cio.  Não um cio voltado exclusivamente para a relação sexual, mas uma espécie de fogo interior cuja chama cresce e depois abaixa, em ciclos.  A partir da energia liberada nesse nível, a mulher age como lhe convém.  O cio da mulher não é um estado de excitação sexual, mas um estado de intensa consciência sensorial que inclui sua sexualidade, sem se limitar a ela.(...)
Existe um aspecto da sexualidade feminina que, nos tempos remotos, era chamado de obsceno sagrado, não na acepção que damos hoje em dia ao termo, mas com um significado de uma sabedoria sexual de uma certa forma bem-humorada.  Havia outrora cultos a deusas que eram voltadas  para uma sexualidade feminina irreverente.  (...) A própria idéia da sexualidade como sagrada, e mais especificamente , da obscenidade como um aspecto da sexualidade sagrada , é vital para a natureza selvática.  Havia deusas da obscenidade nas antigas culturas matriarcais - assim denominadas por sua lascívia astuta, porém inocente.  (...)  Obscene: do hebraico antigo, ob, significando um mago, uma feiticeira.
Há alguns anos,  quando comecei a contar histórias de deusas sujas , as mulheres sorriam e depois riam ao ouvir os feitos das mulheres, tanto verdadeiras quanto mitológicas, que haviam usado sua sexualidade, sua sensualidade, para transmitir uma idéia, para amenizar a tristeza, provocar o riso e , desse modo, corrigir algo que estivesse desencaminhado.  (...) Ficou evidente para mim que a importância dessas antigas deusas da obscenidade  estava na capacidade de soltar o que estava preso, de fazer dissipar a melancolia, de trazer ao corpo uma espécie de humor pertencente não ao intelecto, mas ao próprio corpo, de manter desobstruídas as passagens.(...) É verdade que certos tipos de riso, que provém de todas as histórias que as mulheres contam umas para as outras,  histórias tão apimentadas ao ponto de serem de total mau gosto... essas histórias ativam a libido.  Elas acendem o fogo do interesse da mulher pela vida.  A deusa do ventre e a gargalhada são o que procuramos.  Portanto, acrescente à sua coleção de medicamentos histórias típicas de Baubo.  Essa forma de história é um remédio poderoso. A história engraçada e "suja" pode não só acabar com a depressão como arrancar da raiva o coração irado, deixando a mulher mais feliz do que antes."

A autora ilustra então com trës histórias que mostram o encanto sexual/sensual  gerador de emoções agradáveis:

 "As três  tratam das deusas sujas (...).  Chamo-as sujas porque estiverem vagueando muito tempo debaixo da terra. No sentido positivo, pertencem à terra fértil, à lama, ao estrume - à substância criadora da qual se origna toda a arte.  Na realidade, as deusas sujas representam aquele aspecto da Mulher Selvagem que é tanto sexual quanto sagrado".

Escolhi umas das histórias para compartilhar com vocês aqui no blog, a que fala de Deméter, Perséfone, e de Baubo, a deusa do ventre.  Para essa postagem não ficar longa demais, ela vai , na sequência, na próxima postagem.  Sim, mitologia grega. Porque, afinal, os gregos sabiam de tudo !

Baubo em terracota, Altes Museum, Berlin

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Resoluções de Ano Novo

Sempre gostei dessa coisa de decisões de Ano Novo.  Houve uma época que eu também, como muitos, preguei por aí que nada muda só porque viramos a folhinha, trocamos o calendário, começamos a contagem de novo... Hoje já não penso assim.  Minha sábia tia Ruth me explicou sobre os arquétipos do ser humano, sendo um deles, muito poderoso, o mito do eterno retorno.  O ser humano precisa dessa sensação de começar de novo. De zerar uma etapa, um período de vida, e iniciar uma nova fase, com novos sonhos, com novas prerrogativas.
Sim, temos muito que o que comemorar a cada Ano Novo.  Vencemos, de muitas formas, somente por estarmos vivos.  Vencemos a violência, o medo, a maldade, a dificuldade, a incompreensão, os ataques do Inimigo. Fizemos uma viagem incrível pelo espaço por 365 dias, em torno do Sol... Presenciamos a natureza mudar de forma várias vezes, chuvas torrenciais de verão, neblinas de inverno, flores e frutos de várias estações... Vimos o mar em fúria se levantar contra a areia e o vimos  como espelho dágua  em tardes douradas de paz... Quem olhou para o céu durante as noites em busca da Lua a viu inchar e diminuir, ser grande e amarela, ser fino sorriso de prata, sentiu-se  mais órfão nas noites escuras de Lua negra.
Os chineses, os egípcios, os astecas, os judeus, os povos em geral na sua sabedoria marcam seus ciclos de vida, morte e renascimento e comemoram o poder do ser humano de recomeçar.  Como o Oroborus, figura mítica da serpente que engole a própria cauda, símbolo não só do eterno retorno mas da evolução em espiral que deve ser a nossa vida, não recomeçamos do mesmo lugar.  A cada volta, a cada ciclo, a cada vida-morte-renascimento que é o cerne da  nossa existência, evoluímos um pouco mais, subimos em direção daquilo que nos evoca. 
Eu ia falar sobre as minhas resoluções para o Ano Novo mas volto a elas em breve.  Pois enquanto escrevia, fui tomada por uma gratidão enorme por estar viva, e recomeçando.  Como semente que brota da terra.  Como filhote no ninho que prepara o vôo.  Como criatura amada pelo Criador.
Que o Ano Novo desperte em vocês o Oroborus.  Muitas vezes, não só no início do ano, mas sempre que necessário... e até que terminemos mais uma viagem em torno do Sol. Onde, se Deus permitir, recomeçaremos.
Oroborus