segunda-feira, 19 de setembro de 2011

De novo, o Profeta

Já postei aqui o lindo texto onde  Kalil Gibran, pela voz do Profeta, fala sobre o Amor. Hoje fui buscar o texto em que ele fala sobre a dor, que também é lindo, mas que talvez sua beleza só possa ser entendida por aqueles que experimentaram, ao final de  um período de profunda dor, a consciência de que a travessia  só foi possível pela invisível Mão que nos ampara... E que nos conduz pelos caminhos áridos e causticantes , e que nos impele através  da solidão do deserto, e que nos faz agarrar com mãos nuas às rochas pontiagudas dos despenhadeiros.
Aqueles que já fizeram essa travessia, e encontraram o oásis que abriga, conforta e regenera, acolherão as palavras do Profeta em seus corações. Pois sabem  que sem essa Mão, que muitas vezes nos carrega, tamanha a nossa fragilidade,  teria sido impossível a jornada.
Aqueles que estão, nesse momento, no vale de sua dor e não conseguem extrair  alívio das palavras do Profeta, os que  se sentem sós  e esquecidos em seu sofrimento, sugiro que as leiam  mesmo assim, e que as repitam suavemente... E que esperem e confiem, e sigam caminhando em frente, pois o oásis está próximo...


"E uma mulher disse: - Fala-nos da dor. 
E ele respondeu dizendo: - É a dor que parte a casca do vosso entendimento.
Como o caroço do fruto se deve partir, para que o seu coração se ofereça ao sol, assim deveis conhecer a dor.
E podereis guardar o vosso coração maravilhado pelo milagre de estar vivo todos os dias, e a vossa dor não aparecerá menos maravilhosa que a vossa alegria.
E aceitareis as estações do vosso coração como aceitastes as estações que passam pelos campos.
E velareis serenamente durante os invernos da vossa tristeza. 
Muito do vosso sofrimento fostes vós que o escolhestes. É a porção amarga por meio da qual o médico cura o vosso eu doente. 
Confiai no médico e bebei a poção calados e tranqüilos. 
Pois a sua mão, apesar de ser dura e pesada, é guiada pela mão bondosa do Invisível.
E a taça que oferece, apesar de queimar os lábios, foi moldada da argila que o oleiro molhou com suas lágrimas."

sábado, 17 de setembro de 2011

Desejos

 Meu coração é cheio de desejos…

Uns são nobres, outros bem mundanos.

Meu coração é cheio de desejos…

Às vezes quisera não desejar tanto.

Meu coração é cheio de desejos…

Febris e devassos que com os puros convivem.

Meu coração é cheio de desejos…

Uns eu realizo, outros são só devaneio.

Meu coração é cheio de desejos…

Mas o que mais inquieta a minha alma

É o desejo-ânsia de ser amada, que jamais se cala...

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Mil e uma noites



Sério, se esse não fosse o papiro de Nefertiti seria, sem sombra de dúvida, a alcova de Sherazade....
Porque as histórias me fascinam, principalmente quando bem contadas. Há tantas histórias que quero contar aqui, histórias que desvendam coisas antigas através da sua simbologia, arquétipos poderosos presentes em nossas vidas e que mal damos conta que existem e que nos regem...
Qual o poder de uma história? Contada às crianças na sua tenra idade, transmitida através das gerações  em volta de fogões ou de fogueiras, lendas que não se perdem, fábulas que ensinam, contos que se eternizam... Livros que lemos na infância ou na juventude e nos flagramos dando de presente aos mais novos... Quem nunca disse ou ouviu essa frase: "Você precisa ler esse livro!" ?  Vale também pros filmes...
Há dois mil anos, aquele que ensinava por parábolas já sabia do poder de uma história!
As histórias são bálsamos, e essa frase nem é minha.  Mesmo aquelas que terminam abruptamente, com um final inesperado ou mesmo violento ou trágico, têm um objetivo a cumprir, seja de promover um alerta, seja de suscitar uma reflexão. Penso em Sherazade, que durante noites e noites contou histórias dentro de histórias, e assim aplacou a ira do Califa, transmutando sua fúria cega em amor e compaixão.  Histórias inspiram, transformam.  Histórias também assustam, dão medo, pavor. Histórias trazem à tona coisas que estavam esquecidas ou reprimidas em cantos empoeirados de nós mesmos, sentimentos trancados em quartos e armários escuros da nossa mente. E, trazendo à tona tais coisas, promovem libertação...
Lembrei de Peter Pan que vinha sentar-se à janela da jovem Wendy, para ouvir histórias sobre ele mesmo, contadas aos menores antes da hora de dormir... Como se, ouvindo suas próprias histórias, Peter Pan talvez encontrasse suas próprias respostas e resolvesse , finalmente, crescer...


"Sempre que se conta um conto de fadas, a noite vem.  Não importa o lugar, não importa a hora, não importa a estação do ano, o fato de uma história estar sendo contada faz com que um céu estrelado e um lua branca entrem sorrateiros pelo beiral e fiquem pairando acima da cabeça dos ouvintes. Às vezes, ao final de um conto, o aposento enche-se de amanhecer; outras vezes um fragmento de estrela fica pra trás, ou ainda uma faixa de luz rasga o céu tempestuoso.  E não importa o que tenha ficado para trás, é com essa dádiva que devemos trabalhar: é ela que devemos usar para criar alma."  Clarissa Estés

domingo, 14 de agosto de 2011

O segredo da felicidade

Estou relendo "O Alquimista". Interessante porque eu o li pela primeira vez em 1991, então faz exatamente 20 anos....
Fiquei pensando se, ao lê-lo agora, vou me deter nas mesmas partes da história que me detive há 20 anos, partes que falaram tanto à minha alma na época.  Embora esteja ainda no início do livro, já reencontrei frases e citações que voltaram a me tocar... Que bom, então o tempo não me fez insensível ao chamado da Lenda Pessoal...
Resolvi copiar aqui um pequenina parábola contada por Melquisedec ao jovem Santiago, antes que ele partisse em busca do seu tesouro.  Senta, que lá vem história !

"Certo mercador enviou seu filho para aprender o Segredo da Felicidade com o mais sábio de todos os homens. O rapaz andou quarenta dias pelo deserto até chegar a um belo castelo, no alto de uma montanha. Lá vivia o Sábio que o rapaz buscava.
Ao invés de encontrar um homem santo, porém, o nosso herói entrou numa sala e viu uma atividade imensa; mercadores entravam e saíam, pessoas conversavam pelos cantos, uma pequena orquestra tocava melodias suaves, e havia uma farta mesa com os mais deliciosos pratos daquela região do mundo. O Sábio conversava com todos, e o rapaz teve de esperar  duas horas até chegar sua vez de ser atendido.
O Sábio ouviu atentamente o motivo da vista do rapaz, mas disse-lhe que naquele momento não tinha tempo de explicar-lhe o Segredo da Felicidade. Sugeriu que o rapaz desse um passeio por seu palácio e voltasse dali a duas horas.
- Entretanto, quero lhe pedir um favor - completou o Sábio, entregando ao rapaz uma colher de chá, onde pingou duas gotas de óleo. - Enquanto você estiver caminhando carregue esta colher sem deixar que o óleo seja derramado.
O rapaz começou a subir e descer as escadarias do palácio, mantendo sempre os olhos fixos na colher.  Ao final de duas horas, retornou à presença do Sábio.
- Então - perguntou o Sábio - você viu as tapeçarias da Pérsia que estão na minha sala de jantar? Viu o jardim que o Mestre dos Jardineiros demorou dez anos para criar? Reparou nos belos pergaminhos da minha biblioteca?
O rapaz, envergonhado, confessou que não havia visto nada. Sua única preocupação era não derramar as gotas de óleo que o Sábio lhe havia confiado.
- Pois então volte e conheça as maravilhas do meu mundo - disse o Sábio. - Você não pode confiar num homem se não conhece a sua casa.
Já mais tranquilo, o rapaz pegou a colher e voltou a passear pelo palácio, desta vez reparando em todas as obras de arte que pendiam do teto e das paredes.  Viu os jardins, as montanhas ao redor, a delicadeza das flores, o requinte com que cada obra de arte estava colocada em seu lugar.  De volta à presença do Sábio, relatou pormenorizadamente tudo que havia visto.
- Mas onde estão as duas gotas de óleo que lhe confiei? - perguntou o Sábio.
Olhando para a colher, o rapaz percebeu que as havia derramado.
- Pois este é o único conselho que eu tenho para lhe dar - disse o mais Sábio dos Sábios. - O segredo da felicidade está em olhar todas as maravilhas do mundo, e nunca se esquecer das duas gotas de óleo na colher."

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O predador da alma humana

Depois que a gente lê sobre a desolação e a consolação, começa a perceber com mais clareza o quanto é sutil o nosso Inimigo.  Diz Santo Inácio que o Inimigo da nossa alma é como o homem que quer ser aproveitar da donzela incauta contando-lhe mentiras para seduzi-la ; diz  Clarissa Estés que esse Inimigo é o predador de nós mesmos, que habita a nossa mente e nos sabota o tempo todo.
Seja pela visão religiosa ou pela visão psicanalítica, a verdade é que ele existe.  Às vezes ele é assustador e horrendo , querendo nos impor o medo e o desespero; no entanto, quando nos tornamos mais fortes e já não demonstramos  medo , ele age de tantas outras formas.  Ele planta a mal-querência,  a inveja, infla o nosso orgulho em proporções desmedidas para que nos tornemos cegos ao Bem. Ele se aproveita de nossas pequenas fragilidades, de nossos cansaços e de nossas carências, ora nos fazendo vacilantes, ora nos enchendo de espinhos, mostrando-nos a força de nossa fúria, para que saiamos desgovernados, maltratando aos que amamos, pois dessa forma torturamos a nós mesmos, sendo essa a sua  principal aspiração.
O predador da nossa alma nunca dorme, pois sabe que tem que tentar todas as chances de conseguir o seu objetivo. Como tão bem ilustrado na história da Donzela sem Mãos, ele troca as mensagens causando desentendimento e tristeza; ele procura corromper os homens com valores fugazes , tesouro, fama, vaidades. Ele se mete em cada casa e em cada família, procurando plantar discórdias e silêncios entre pais e filhos, entre marido e mulher, entre irmãos e amigos. Ele é desleal porque nos usa como escudo se aproveitando de nossas fragilidades; ele é traiçoeiro porque muda de máscara conforme a ocasião, alternando  a figura de besta assustadora com  o disfarce de pele de cordeiro.  Ele é perigoso porque alimenta nossos desejos às avessas, nos elevando às alturas através do nosso egoísmo.
Ele ainda falsamente nos consola com pensamentos de não ligo, não me importo, vocês vão ver, não sabe o que te esperam, e toda a consolação enganosa que se, no primeiro momento parece trazer alívio, na verdade só nos suga dentro de uma espiral descendente e escura.  Esses pensamentos não nos iluminam; esses pensamentos não nos trazem para a leveza da paz.
Diz o texto bíblico : “Sede sóbrios e vigiai, pois o Adversário anda à volta, como um leão que ruge, pronto a vos devorar.”
Contra a desolação e a consolação enganosa, devemos agir contra. Caminhar com decisão e firmeza no sentido contrário a pensamentos que nos arrastam para o lodo.  Diagnosticar logo o que é e o que não é do Bem.  Pensamentos que nos oprimem, que nos diminuem, que nos fazem rancorosos, nada disso vem da Força que buscamos.  Quem viu Guerra nas Estrelas sabe que a Força tem dois lados: devemos escolher a cada momento quem será o nosso mestre, e a que Voz devemos seguir.  Pois  o poder do lado Negro tem seu encanto, justamente para nos atrair e destruir. Para resistir a ele,  agere contra ! E que a Força esteja conosco.

Obs:  Para quem estiver interessado em  ler mais sobre a consolação e  desolação, e como agir nas duas situações, indico:

quinta-feira, 21 de julho de 2011

O Equilíbrio

Há dias atrás fui procurar um livro antigo do Lourenço Prado, chamado  Equilíbrio e Recompensa.  Porque se há uma coisa de difícil aprendizado para mim é essa  manutenção do equilíbrio. O equilíbrio é diferente da paz, eu acho. A paz é volátil;  por ser inebriante é mesmo de sua característica ser passageira; visto que nenhum perfume ou aroma pode permanecer  para sempre.  Quando a paz se vai, é nesse momento que deve ficar o equilíbrio.  Difícil.
Outro dia recebi um powerpoint sobre um velho mestre samurai que, frente a um jovem da cidade que o desacatava e o ofendia, permaneceu impassível ouvindo todas as espécies de injustiças até que o ofensor, cansado e frustrado, desistisse do seu intento e fosse embora.  Ao ser perguntado como pôde manter a calma  frente àquela chuva de acusações, o mestre explicou que era uma questão de aceitar ou não as ofensas... Não as aceitando  intimamente, o ofensor as levaria de volta, carregando o peso de cada uma delas...
Procuro uma imagem que represente esse desejado equilíbrio.  A primeira imagem que me vem é a de um lago, mas vejam,  abaixo de sua superfície espelhada  agitam-se dores e sentimentos e emoções tão intensas. Sua superfície é lisa como um espelho que reflete as rochas e as árvores , mas um mergulho no seu escuro  frio  traz  a certeza que esse é um caminho  perigosamente envolvente, onde os sentimentos há muito sedimentados no fundo voltam em turbilhão e comprometem  a transparência da água.  A imagem da âncora, então aparece...  Uma guia, uma corda, com uma âncora confiável lá no fundo, pode ajudar nessa descida exploratória.  Descendo lentamente, tendo como direção o traçado da corda que termina na âncora,  poderemos ir mais profundamente. Descendo lentamente, a suspensão será menor e poderemos vislumbrar melhor todos os sentimentos que se agitam dentro do nosso próprio eu.  Com a mão na guia, saberemos que o caminho de volta à superfície é garantido; então poderemos nos permitir ficar inertes por um momento, e observar a água voltar a clarear,  a luz  do sol incidir mesmo no lugar mais profundo, ouvir o som da nossa respiração em sintonia com o silêncio... Sentir enfim que, seja qual for a onda com que a desolação nos atinja, esse momento irá passar e voltaremos a deitar sobre a relva à beira do lago, aquecer-nos sob um sol que nos abraça e, quem sabe sentir novamente o aroma da paz.         
 

terça-feira, 7 de junho de 2011

Lá e de volta outra vez...

Quando bate a angústia ou a desolação, tenho vontade de vir para cá escrever.  Quando estamos muito bem cuidando de nossas vidas, pagando contas e organizando tarefas, indo e vindo nas inúmeras atividades que nos distraem do essencial, eis que ele vem sussurrar mensagens enganosas junto de nossos ouvidos.  Lembrei-me hoje tão bem da história da Donzela sem Mãos.  Do diabo trocando as mensagens junto ao rio, o mensageiro adormecido no descuidado abandono de sua vigília.  A  desolação  chega de repente, mas chega  avassaladora, como o vento frio cortando tudo em estilhaços de gelo.  Quando Rowling fala dos dementadores, e de como bloqueiam a sensação de felicidade, quando Tolkien define os espectros como a escuridão definitiva da alma, o ferimento que nunca fecha, isso é a desolação.  A desolação murcha de repente o mais florido jardim de sonhos, ela decepa as esperanças e congela de imediato aquela chama que teima em bruxulear contra a profunda escuridão.
O grande objetivo da desolação é nos roubar a esperança.  É nos deixar tão cegos de dor que não consigamos sair dessa névoa traiçoeira, que se levanta dos pântanos da mente para nos envolver e tragar.
É preciso pois, contra esse gelo que corta e esse frio que açoita, algo inflamável que nos possa devolver o calor.  Algo que brilhe e ilumine, algo que aqueça rápido e conforte, algo de fácil combustão pois não podemos  ficar perdidos no frio e no gelo por muito tempo.
Onde podemos guardar essa chama dentro de nós, para que possamos contar com ela quando a desolação nos tomar? Em que caixa ou redoma à prova de tempestades essa chama pode estar protegida para que nos conduza para fora do pântano todas as vezes que for preciso?
Penso em Vasalisa, e sua caveira incadescente. Penso no filme "A guerra do fogo"onde as tribos nômades lutavam per uma pequena brasa para que o fogo nunca lhe faltasse. Penso na explosão da fênix, criando vida e luz aonde só havia cinzas. Penso no Espírito Santo, presença quente e poderosa de Deus, luz que propaga afastando a escuridão, incenso mágico que queima nos transportando de volta à proteção paterna; lembro das línguas de fogo que vieram sobre os apóstolos, enchendo-os de dons.
Esse fogo, essa chama que arde, é a Vida lutando contra a desolação.  É a tal centelha divina que herdamos de nosso Pai, é fogueira que nos infunde de volta a coragem: É consolação...