segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Beltane outra vez !!

Chegamos novamente à época do Beltane, celebrado em forma de festival na antiga religião matriarcal dos celtas.  Embora cada um siga a religião que abraçou, uma reflexão mais abrangente do que significa o Beltane traz de volta a brisa de algo que não lembramos, mas que não esquecemos totalmente... A lembrança da gratidão à Mãe Terra, ao Poder do Selvagem...Essa brisa traz de volta o aroma das flores e dos frutos vicejando nos campos, as fogueiras e as danças em noite de lua cheia,  o cheiro dos ventos e dos oceanos, o compartilhar do alimento entre risos e histórias, os corpos dançando livremente, a alegria selvagem e fundamental de estarmos vivos....


Sim, somos todos discípulos da Deusa-Mãe que nos forçaram a esquecer... Sim, somos a imagem e semelhança do Pai, e também da Mãe, pois Deus é tudo....

A gratidão de estar vivo é o motivo para comemorarmos o Beltane: o fim do inverno, a volta do sol,  o renascer, o recomeçar... Pois sempre é possível recomeçar.  Dizem alguns que estamos aqui nesse mundo de passagem... Sei não. Acho que, enquanto estamos aqui, independentemente para onde estamos seguindo em nossa viagem cíclica e ascendente , enquanto estivermos aqui, devemos fazer valer...  Por isso,  na noite de hoje, celebremos !

Celebremos a alegria de estarmos vivos, respirando, caminhando, pensando, ponderando, decidindo... Celebremos o poder de retroceder, de refazer, de recriar, de começar de novo... Celebremos o poder de transmutarmos vida em alimento, seja essa vida em forma de vegetais ou animais... Celebramos com uma taça de vinho, pois o vinho nos acompanha desde tempos imemorias...
Que cade uma de nós se prepare para o Beltane da forma como melhor lhe convier no momento de vida que estiver vivendo... Mas sejamos gratos à Mãe Natureza, ao Sol que nos incendeia, a Lua que nos embala, a Chuva que nos faz florescer...

Acenda sua fogueira interior, feche os olhos e dance em volta dela, ouça a música,  convoque em pensamento  todos os seus entes queridos, ouça a música e os risos, cante, enfeite-se de flores, ame e transborde de gratidão por estar vivo: É Beltane, afinal!

domingo, 16 de outubro de 2011

O urso da meia-lua

Meu lado Sherazade quer derramar aqui no blog um cabedal de histórias... Quero muito contá-las aqui, e as contarei, a do Barba Azul, a dos ”Sapatinhos Vermelhos”, e  a da  “Cantadora de Ossos”, entre outras tantas.

Hoje porém  vou reescrever a história do urso da meia-lua, uma linda história oriental sobre o domínio da ira e sobre o perdão.  Essa história fala da viagem que, mais cedo ou mais tarde, todos devemos empreender: subir nossa própria montanha, desafiar um a um todos os perigos, dominar todos os nossos medos, em busca daquilo que é  verdadeiro em nossa vida.  Como guia e escudo, levamos somente o amor...

“Era uma vez uma jovem mulher que vivia numa perfumada floresta de pinheiros.  Seu marido esteve fora, lutando na guerra, muitos anos.  Quando ele afinal foi liberado, voltou para casa com o pior do humores.  Ele se recusou a entrar na casa pois havia se acostumado a dormir nas pedras.  Ele só queria ficar só e permanecia na floresta tanto de dia quanto à noite.  A jovem esposa ficou tão feliz quando soube que o marido estava afinal voltando para casa.  Ela cozinhou e fez compras, e fez compras e cozinhou.  Preparou pratos e mais pratos, tigelas e mais tigelas, de delicioso queijo branco de soja, três tipos de peixe, três tipos de algas, arroz salpicado com pimenta vermelha, e belos camarões frios, grandes e alaranjados.  Com um tímido sorriso ela levou os alimentos até o bosque e se ajoelhou  ao lado do marido esgotado pela guerra, oferecendo-lhe a bela refeição que havia preparado.  No entanto ele se pôs de pé e chutou as travessas de modo que o queijo de soja caiu, os peixes saltaram no ar, as algas e o arroz caíram na terra e os grandes camarões alaranjados rolaram pelo caminho abaixo.
 – Deixe-me em paz! – rugiu ele, voltando-lhe as costas.  Ele estava tão furioso que ela sentiu medo.  E afinal, em desespero, ela foi procurar a gruta da curandeira que morava fora da aldeia.
 – Meu marido foi ferido gravemente na guerra – disse a esposa.  – Ele sofre de uma raiva permanente e não come nada.  Só quer ficar ao ar livre e não se dispõe a voltar a viver comigo.  A senhora não pode me dar uma poção que faça com que ele volte a ser carinhoso e gentil?
– Isso eu posso fazer por você – asseverou-lhe a curandeira.  – Mas vou precisar de um ingrediente especial.  Infelizmente, acabou todo meu pelo  de urso de meia-lua.  Por isso você deve subir a montanha, encontrar o urso negro e me trazer um único pelo da meia-lua que ele tem no pescoço.  Depois, eu lhe darei o que você precisa, e a vida voltará a ser boa.
Algumas mulheres teriam se sentido desencorajadas com essa tarefa.  Algumas teriam considerado que todo esse esforço era impossível.  Mas não ela, pois ela era uma mulher que amava.
–  Ah ! Como lhe sou grata ! É tão bom saber que existe uma solução. – E assim ela se preparou para a viagem e na manhã seguinte partiu para a montanha. –   Arigatô zaishô – dizia ela, o que é uma forma de cumprimentar a montanha e lhe dizer “Obrigada por me deixar escalar seu corpo”.  Ela se embrenhou nos contrafortes, onde havia rochas semelhantes a grandes pães de forma.  Subiu até um platô coberto de mata.  Ás árvores tinham galhos longos e caídos e folhas que se pareciam com estrelas. –  Arigatô zaishô – entoou.  Era uma forma de agradecer as árvores por erguerem seus cabelos para que ela pudesse passar por baixo.  E assim ela conseguiu atravessar a floresta e começou a subir de novo.  Agora estava mais difícil.  A montanha tinha flores espinhosas que se prendiam na barra de seu quimono e rochas que arranhavam suas mãos delicadas.  Estranhos pássaros escuros saíram voando na sua direção no crepúsculo, deixando-a assustada.  Ela sabia que era os muen-botoke, espíritos dos mortos que não tinham parentes.  Ela entoou orações para eles. – Vou ser sua parenta.  Vou dar-lhes descanso.  Ela prosseguiu subindo pois era uma mulher que amava.  Subiu até ver neve no pico da montanha.  Logo seus pés estavam frios e molhados, e ela continuava a escalar, pois era uma mulher que amava.  Começou uma tempestade, e a neve penetrava direto nos seus olhos e fundo nas suas orelhas.  Mesmo sem ver, ela continuava a subir. – Arigatô zaishô – cantou a mulher , quando a nevasca parou, para agradecer aos ventos por terem parado de cegá-la.  Ela procurou abrigo numa caverna rasa e mal conseguiu lugar para seu corpo inteiro.  Embora tivesse uma bolsa cheia de alimentos, ela não comeu, mas se cobriu com folhas e adormeceu.  Pela manhã o ar estava calmo e plantinhas verdes chegavam a atravessar aqui e acolá.  – Ah – pensou ela.  – Agora, ao urso da meia-lua.  Ela procurou o dia inteiro quase ao anoitecer encontrou grossos cordões de bosta.  E não precisou procurar mais, pois um gigantesco urso negro passou pesadamente pela neve, deixando profundas marcas de patas e garras.  O urso da meia-lua deu um rugido feroz e entrou em sua toca.  A mulher enfiou a mão na trouxa e colocou numa tigela a comida que trouxera.  Ela colocou a tigela do lado de fora da toca e voltou correndo para seu esconderijo.    O urso sentiu o cheiro da comida e saiu cambaleando da toca, rugindo tão alto que pequenas pedras se soltaram do lugar.  O urso fez um círculo em volta da comida de uma certa distância, farejou o vento muitas vezes e depois comeu tudo de uma só vez.  O enorme urso foi andando de ré e sumiu dentro de sua toca.  Na noite seguinte, a mulher agiu da mesma forma, servindo o alimento na tigela, mas dessa vez não voltou para seu esconderijo, recuando apenas metade do caminho.  O urso sentiu o cheiro da comida, saiu pesadamente da toca, rugiu para abalar os céus e as estrelas, deu uma volta, farejou o ar com extremo cuidado, mas afinal engoliu a comida e voltou para a toca.  Isso continuou por muitas noites até que numa noite escura a mulher sentiu ter coragem suficiente para esperar ainda mais perto da toca do urso.  Ela pôs a comida na tigela do lado de fora e ficou esperando junto à abertura.  Quando o urso sentiu o cheiro e saiu, ele viu não só a comida mas também um par de pequenos pés humanos.  O urso virou a cabeça e rugiu tão alto que fez os ossos do corpo da mulher zumbirem.  A mulher tremia mas não recuava.  O urso ergueu nas patas traseiras, estalou as mandíbulas e rugiu tanto que a mulher pôde ver o céu vermelho e marrom da sua boca.  Mesmo assim, ela não saiu correndo.  O urso rugiu ainda mais e estendeu seus braços como se quisesse agarrá-la, com suas dez garras suspensas como dez facas sobre sua cabeça.  A mulher tremia como uma folha ao vento, mas permaneceu onde estava.  – Por favor, meu querido urso – implorou ela.  – Por favor, vim toda essa distância em busca de uma cura para meu marido.  – O urso voltou as patas dianteiras para a terra fazendo voar a neve e olhou diretamente no rosto assustado da mulher.  Por um instante, ela teve a impressão de ver cordilheiras inteiras, vales, rios e aldeias refletidas nos olhos vermelhíssimos do urso. Uma paz profunda caiu sobre ela, e seus tremores passaram.  – Por favor, urso querido, eu venho lhe trazendo alimento todas essas noites.  Será que eu podia ficar com um dos pelos da meia-lua do seu pescoço?
O urso parou e pensou, essa mulherzinha seria fácil de devorar.  No entanto, ele de repente se sentiu cheio de pena dela.  – É verdade – disse o ursoda meia-lua, sem afastar as garras da sua cabeça. – Você foi boa para mim.  Pode ficar com um dos meus pelos.  Mas arranque-o rápido, vá embora e volte para a sua gente. O urso ergueu seu enorme focinho para que aparecesse a meia-lua branca do seu pescoço, e a mulher viu ali a forte pulsação do seu coração.  A mulher pôs uma das mãos no  pescoço do urso, e com a outra segurou um único pelo branco e lustroso.  Rapidamente ela o arrancou.  O urso recuou e gritou como se estivesse ferido.  E essa dor assumiu a forma de bufos irritados.  – Ah, obrigada, urso da meia-lua, muitíssimo obrigada.  – A mulher se inclinou em reverência e voltou a se inclinar.  Mas o urso rosnou e avançou um passo.  Ele rugiu para a mulher com palavras que ela não entendia e, no entanto, palavras que de algum modo havia conhecido toda a vida. Ela se voltou e correu montanha abaixo com a maior velocidade possível.  Ela passou correndo debaixo das árvores de folhas com formato de estrelas.  E o tempo todo ela agradecia às árvores por erguerem seus galhos para ela passar.  Ela veio tropeçando pelas pedras que pareciam grandes pães de forma, sempre agradecendo à montanha por deixar que ela escalasse seu corpo.  Embora suas roupas estivessem esfarrapadas, seu cabelo desalinhado, seu rosto sujo, ela desceu a escada de pedra que levava até a aldeia, seguiu pela estrada de terra atravessando a cidade até o outro lado e entrou na cabana onde a curandeira estava sentada cuidando do fogo.
– Olhe !  Olhe !  Consegui, encontrei, conquistei um pelo do urso da meia-lua! – gritou a jovem mulher.
– Que bom – disse a curandeira com um sorriso,  Ela examinou a mulher atentamente, pegou o pelo de um branco puríssimo e o segurou perto da luz.  Ela sopesou o longo pelo com uma das mãos e o mediu com um dedo e exclamou: - É ! Este é um autêntico pelo do urso da meia-lua. – De repente, porém, ela se voltou e lançou pelo no meio do fogo, onde ele estalou, pipocou e se consumiu numa bela chama laranja.
–  Não ! – gritou a mulher. – O que a senhora fez?
– Fique calma.  Está certo.  Tudo está bem – disse a curandeira.  – Você se lembra de cada passo que deu para conquistar a confiança do urso da meia-lua?  Você se lembra do que viu, do que ouviu e do que sentiu?
– Lembro – disse a mulher.  - Lembro-me muito bem.
–  Então, minha filha – disse a velha curandeira com um sorriso meigo – volte por favor para casa com seus novos conhecimentos e proceda da mesma forma com seu marido.


Tsunika Waguma

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

De novo, o Profeta

Já postei aqui o lindo texto onde  Kalil Gibran, pela voz do Profeta, fala sobre o Amor. Hoje fui buscar o texto em que ele fala sobre a dor, que também é lindo, mas que talvez sua beleza só possa ser entendida por aqueles que experimentaram, ao final de  um período de profunda dor, a consciência de que a travessia  só foi possível pela invisível Mão que nos ampara... E que nos conduz pelos caminhos áridos e causticantes , e que nos impele através  da solidão do deserto, e que nos faz agarrar com mãos nuas às rochas pontiagudas dos despenhadeiros.
Aqueles que já fizeram essa travessia, e encontraram o oásis que abriga, conforta e regenera, acolherão as palavras do Profeta em seus corações. Pois sabem  que sem essa Mão, que muitas vezes nos carrega, tamanha a nossa fragilidade,  teria sido impossível a jornada.
Aqueles que estão, nesse momento, no vale de sua dor e não conseguem extrair  alívio das palavras do Profeta, os que  se sentem sós  e esquecidos em seu sofrimento, sugiro que as leiam  mesmo assim, e que as repitam suavemente... E que esperem e confiem, e sigam caminhando em frente, pois o oásis está próximo...


"E uma mulher disse: - Fala-nos da dor. 
E ele respondeu dizendo: - É a dor que parte a casca do vosso entendimento.
Como o caroço do fruto se deve partir, para que o seu coração se ofereça ao sol, assim deveis conhecer a dor.
E podereis guardar o vosso coração maravilhado pelo milagre de estar vivo todos os dias, e a vossa dor não aparecerá menos maravilhosa que a vossa alegria.
E aceitareis as estações do vosso coração como aceitastes as estações que passam pelos campos.
E velareis serenamente durante os invernos da vossa tristeza. 
Muito do vosso sofrimento fostes vós que o escolhestes. É a porção amarga por meio da qual o médico cura o vosso eu doente. 
Confiai no médico e bebei a poção calados e tranqüilos. 
Pois a sua mão, apesar de ser dura e pesada, é guiada pela mão bondosa do Invisível.
E a taça que oferece, apesar de queimar os lábios, foi moldada da argila que o oleiro molhou com suas lágrimas."

sábado, 17 de setembro de 2011

Desejos

 Meu coração é cheio de desejos…

Uns são nobres, outros bem mundanos.

Meu coração é cheio de desejos…

Às vezes quisera não desejar tanto.

Meu coração é cheio de desejos…

Febris e devassos que com os puros convivem.

Meu coração é cheio de desejos…

Uns eu realizo, outros são só devaneio.

Meu coração é cheio de desejos…

Mas o que mais inquieta a minha alma

É o desejo-ânsia de ser amada, que jamais se cala...

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Mil e uma noites



Sério, se esse não fosse o papiro de Nefertiti seria, sem sombra de dúvida, a alcova de Sherazade....
Porque as histórias me fascinam, principalmente quando bem contadas. Há tantas histórias que quero contar aqui, histórias que desvendam coisas antigas através da sua simbologia, arquétipos poderosos presentes em nossas vidas e que mal damos conta que existem e que nos regem...
Qual o poder de uma história? Contada às crianças na sua tenra idade, transmitida através das gerações  em volta de fogões ou de fogueiras, lendas que não se perdem, fábulas que ensinam, contos que se eternizam... Livros que lemos na infância ou na juventude e nos flagramos dando de presente aos mais novos... Quem nunca disse ou ouviu essa frase: "Você precisa ler esse livro!" ?  Vale também pros filmes...
Há dois mil anos, aquele que ensinava por parábolas já sabia do poder de uma história!
As histórias são bálsamos, e essa frase nem é minha.  Mesmo aquelas que terminam abruptamente, com um final inesperado ou mesmo violento ou trágico, têm um objetivo a cumprir, seja de promover um alerta, seja de suscitar uma reflexão. Penso em Sherazade, que durante noites e noites contou histórias dentro de histórias, e assim aplacou a ira do Califa, transmutando sua fúria cega em amor e compaixão.  Histórias inspiram, transformam.  Histórias também assustam, dão medo, pavor. Histórias trazem à tona coisas que estavam esquecidas ou reprimidas em cantos empoeirados de nós mesmos, sentimentos trancados em quartos e armários escuros da nossa mente. E, trazendo à tona tais coisas, promovem libertação...
Lembrei de Peter Pan que vinha sentar-se à janela da jovem Wendy, para ouvir histórias sobre ele mesmo, contadas aos menores antes da hora de dormir... Como se, ouvindo suas próprias histórias, Peter Pan talvez encontrasse suas próprias respostas e resolvesse , finalmente, crescer...


"Sempre que se conta um conto de fadas, a noite vem.  Não importa o lugar, não importa a hora, não importa a estação do ano, o fato de uma história estar sendo contada faz com que um céu estrelado e um lua branca entrem sorrateiros pelo beiral e fiquem pairando acima da cabeça dos ouvintes. Às vezes, ao final de um conto, o aposento enche-se de amanhecer; outras vezes um fragmento de estrela fica pra trás, ou ainda uma faixa de luz rasga o céu tempestuoso.  E não importa o que tenha ficado para trás, é com essa dádiva que devemos trabalhar: é ela que devemos usar para criar alma."  Clarissa Estés

domingo, 14 de agosto de 2011

O segredo da felicidade

Estou relendo "O Alquimista". Interessante porque eu o li pela primeira vez em 1991, então faz exatamente 20 anos....
Fiquei pensando se, ao lê-lo agora, vou me deter nas mesmas partes da história que me detive há 20 anos, partes que falaram tanto à minha alma na época.  Embora esteja ainda no início do livro, já reencontrei frases e citações que voltaram a me tocar... Que bom, então o tempo não me fez insensível ao chamado da Lenda Pessoal...
Resolvi copiar aqui um pequenina parábola contada por Melquisedec ao jovem Santiago, antes que ele partisse em busca do seu tesouro.  Senta, que lá vem história !

"Certo mercador enviou seu filho para aprender o Segredo da Felicidade com o mais sábio de todos os homens. O rapaz andou quarenta dias pelo deserto até chegar a um belo castelo, no alto de uma montanha. Lá vivia o Sábio que o rapaz buscava.
Ao invés de encontrar um homem santo, porém, o nosso herói entrou numa sala e viu uma atividade imensa; mercadores entravam e saíam, pessoas conversavam pelos cantos, uma pequena orquestra tocava melodias suaves, e havia uma farta mesa com os mais deliciosos pratos daquela região do mundo. O Sábio conversava com todos, e o rapaz teve de esperar  duas horas até chegar sua vez de ser atendido.
O Sábio ouviu atentamente o motivo da vista do rapaz, mas disse-lhe que naquele momento não tinha tempo de explicar-lhe o Segredo da Felicidade. Sugeriu que o rapaz desse um passeio por seu palácio e voltasse dali a duas horas.
- Entretanto, quero lhe pedir um favor - completou o Sábio, entregando ao rapaz uma colher de chá, onde pingou duas gotas de óleo. - Enquanto você estiver caminhando carregue esta colher sem deixar que o óleo seja derramado.
O rapaz começou a subir e descer as escadarias do palácio, mantendo sempre os olhos fixos na colher.  Ao final de duas horas, retornou à presença do Sábio.
- Então - perguntou o Sábio - você viu as tapeçarias da Pérsia que estão na minha sala de jantar? Viu o jardim que o Mestre dos Jardineiros demorou dez anos para criar? Reparou nos belos pergaminhos da minha biblioteca?
O rapaz, envergonhado, confessou que não havia visto nada. Sua única preocupação era não derramar as gotas de óleo que o Sábio lhe havia confiado.
- Pois então volte e conheça as maravilhas do meu mundo - disse o Sábio. - Você não pode confiar num homem se não conhece a sua casa.
Já mais tranquilo, o rapaz pegou a colher e voltou a passear pelo palácio, desta vez reparando em todas as obras de arte que pendiam do teto e das paredes.  Viu os jardins, as montanhas ao redor, a delicadeza das flores, o requinte com que cada obra de arte estava colocada em seu lugar.  De volta à presença do Sábio, relatou pormenorizadamente tudo que havia visto.
- Mas onde estão as duas gotas de óleo que lhe confiei? - perguntou o Sábio.
Olhando para a colher, o rapaz percebeu que as havia derramado.
- Pois este é o único conselho que eu tenho para lhe dar - disse o mais Sábio dos Sábios. - O segredo da felicidade está em olhar todas as maravilhas do mundo, e nunca se esquecer das duas gotas de óleo na colher."

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O predador da alma humana

Depois que a gente lê sobre a desolação e a consolação, começa a perceber com mais clareza o quanto é sutil o nosso Inimigo.  Diz Santo Inácio que o Inimigo da nossa alma é como o homem que quer ser aproveitar da donzela incauta contando-lhe mentiras para seduzi-la ; diz  Clarissa Estés que esse Inimigo é o predador de nós mesmos, que habita a nossa mente e nos sabota o tempo todo.
Seja pela visão religiosa ou pela visão psicanalítica, a verdade é que ele existe.  Às vezes ele é assustador e horrendo , querendo nos impor o medo e o desespero; no entanto, quando nos tornamos mais fortes e já não demonstramos  medo , ele age de tantas outras formas.  Ele planta a mal-querência,  a inveja, infla o nosso orgulho em proporções desmedidas para que nos tornemos cegos ao Bem. Ele se aproveita de nossas pequenas fragilidades, de nossos cansaços e de nossas carências, ora nos fazendo vacilantes, ora nos enchendo de espinhos, mostrando-nos a força de nossa fúria, para que saiamos desgovernados, maltratando aos que amamos, pois dessa forma torturamos a nós mesmos, sendo essa a sua  principal aspiração.
O predador da nossa alma nunca dorme, pois sabe que tem que tentar todas as chances de conseguir o seu objetivo. Como tão bem ilustrado na história da Donzela sem Mãos, ele troca as mensagens causando desentendimento e tristeza; ele procura corromper os homens com valores fugazes , tesouro, fama, vaidades. Ele se mete em cada casa e em cada família, procurando plantar discórdias e silêncios entre pais e filhos, entre marido e mulher, entre irmãos e amigos. Ele é desleal porque nos usa como escudo se aproveitando de nossas fragilidades; ele é traiçoeiro porque muda de máscara conforme a ocasião, alternando  a figura de besta assustadora com  o disfarce de pele de cordeiro.  Ele é perigoso porque alimenta nossos desejos às avessas, nos elevando às alturas através do nosso egoísmo.
Ele ainda falsamente nos consola com pensamentos de não ligo, não me importo, vocês vão ver, não sabe o que te esperam, e toda a consolação enganosa que se, no primeiro momento parece trazer alívio, na verdade só nos suga dentro de uma espiral descendente e escura.  Esses pensamentos não nos iluminam; esses pensamentos não nos trazem para a leveza da paz.
Diz o texto bíblico : “Sede sóbrios e vigiai, pois o Adversário anda à volta, como um leão que ruge, pronto a vos devorar.”
Contra a desolação e a consolação enganosa, devemos agir contra. Caminhar com decisão e firmeza no sentido contrário a pensamentos que nos arrastam para o lodo.  Diagnosticar logo o que é e o que não é do Bem.  Pensamentos que nos oprimem, que nos diminuem, que nos fazem rancorosos, nada disso vem da Força que buscamos.  Quem viu Guerra nas Estrelas sabe que a Força tem dois lados: devemos escolher a cada momento quem será o nosso mestre, e a que Voz devemos seguir.  Pois  o poder do lado Negro tem seu encanto, justamente para nos atrair e destruir. Para resistir a ele,  agere contra ! E que a Força esteja conosco.

Obs:  Para quem estiver interessado em  ler mais sobre a consolação e  desolação, e como agir nas duas situações, indico: